Esfolando o joanete


Quando comecei a escrever neste blog, quase fiz uma promessa para mim mesmo. Pensei, “vou conseguir não pensar em política, nem escrever sobre estas bobagens”.

Coincidentemente, naquela época, estava em um processo de desintoxicação. Tentava fugir de informação. “Quer saber da última do seu país, Nuno?” “Não, obrigado”. Nada de rádio, nada do comentário diário do fulano, do artigo semanal do siclano. Zapeava, debilmente, quando a TV mostrava aquela tomada clássica do Palácio da Alvorada. Quando lia o jornal, ou uma revista qualquer, procurava, instantaneamente, coisas reconhecidamente mais interessantes: futebol, culinária, mulher pelada. Fiz força para que, durante um tempo, jardinagem fosse um assunto mais apaixonante que política ou economia. Lembrava de direita e esquerda apenas na hora de calçar o tênis.

Tentei de tudo. Se conhecesse as táticas de treinamento que aqueles domadores impõe aos bichos, seus comandados, eu as tentaria comigo mesmo. Neste panorama, depois de alguns meses, qualquer nome ou sigla relacionados ao demoníaco assunto, seriam sumariamente ignorados. Ambicionava chegar a um ponto onde seria confundido com alguém lobotomizado. A palavra “Lula” receberia, das minhas sinapses, o mesmo tratamento destinado à Cloridrato de Metoclopramida.

Mas não consegui.

Usando uma metáfora bíblica, estou sete vezes pior. Sem contar que, nesta fase atual, tenho sempre por perto amigos que gostam do assunto. Instalamos uma espécie de clube de bordadeiras aqui no departamento. Desde então, ficou impossível manter-se a parte do mundo. Um sempre alimenta o monstro de “centro”-direita que existe no outro. E ninguém acha que, por ser de direita, o vizinho se torna nazista, maníaco sexual ou assassino de criancinhas. Não existe suspeitas sobre a existência de tatuagens do Josef Mengele. Sem contar que nas mesas de bar, sempre temos a participação de algum amigo com visão contrária. E, nestas oportunidades, não cortamos o microfone de ninguém.

Na adolescência e início da juventude, tive problemas desta ordem. Não entendo o porquê, mas parece que é moda ser comunista (sem ser pejorativo) quando se é jovem. Acontece que, no meu caso, nunca metabolizei este hormônio vermelho. Nunca tive uma camiseta do Che (o que poderia ser uma mancha na minha história, reconheço), não me filiei ao PC do B nem ao PT, como muitos amigos meus. Por falar no “herói” barbudo e de boina, quase apanhei uma vez, ao ironizar tão imaculado ícone. Eu era sempre o porco direitista.

Tentei, uma vez, ir contra tudo o que acreditava: votei no Lula. E, desde então, tenho uma outra definição para peso na consciência. Além de pensar diferente sobre a obrigatoriedade do voto.

E tudo piorou quando fui para a faculdade. Carreguei um anátema por quatro anos. As pessoas se surpreendiam comigo. Afinal, eu fazia biologia e era barbudo. Ser comunista era um adjetivo mais que óbvio. Mas quando o assunto descambava, eu me tornava o Lázaro. Mas sobrevivi. Tive poucos amigos no DCE. E, em vista da insalubridade do território, preferia falar sobre taxonomia de pteridófitas, paradigma vicariante, futebol ou da beleza que havia nas microvilosidades quando vistas ao microscópio.

Nem sei porque estou gastando meu tempo precioso com tudo isso. Afinal, o blog não seria usado para estes fins.

Talvez porque ontem o maitréia da nova era das desculpas esfarrapadas em política se manifestou. E eu me senti na obrigação de celebrar o advento de novos tempos.

Eu imaginava viver em um país onde, quando em xeque, os políticos - e outros simbiontes (sindicalistas, lobistas, funcionários de diferentes escalões) - diziam apenas “eu não sei nada sobre isso”. Variações no tempo verbal e regionalismos a parte, a idéia era sempre a mesma. Como expoente máximo da escola do “não sei”, tivemos o nosso presidente, que proferiu a frase cabalística alguma vezes durante o seu mandato.

Ontem, entretanto, o suposto vazador do dossiê foi além. O “não sei, não me lembro”, ficou para trás. Ele foi a primeira testemunha de um mundo previsto por vários escritores de ficção científica. “Eu não me lembro de ter clicado para repassar a base de dados". Clicar?, para que? O futuro chegou. Vivemos a era das máquinas. Os computadores têm vontade própria. Quem for comprar um exemplar do clássico Neuromancer, não vai mais encontrá-lo na prateleira de ficção.

É com pesar, entretanto, que olho pela janela e não vejo carros voadores. O lugar que seria do meu traje futurista é ainda ocupado pela mesma calça jeans de sempre. Ainda continuamos com aquela mesma rotina arcaica de plantar, esperar crescer, descascar, cozinhar e comer. Nada de pílulas de rosbife com batatas, nem de raio laser por todos os lados. E até agora, infelizmente, nenhuma espaçonave apareceu.

Suponho que, como sempre, as coisas fantásticas comecem em Brasília. O mundo que eu vejo é certamente deturpado. Falta para mim e para a maioria das pessoas normais, a sagacidade e os óculos 3D do vazador. Ele cometeu, na verdade, uma gafe. Revelou algo que poderia criar uma comoção de proporções descabidas. Ontem a sociedade esteve a ponto de ruir. A verdade quase foi revelada. A resposta foi imediata, e procurou aceitação nos medos mais primitivos da população: “foi um fantasma”.

Somos dominados por máquinas. E, infelizmente, as que pararam por aqui são das mais estúpidas. Aposto que são todas uma versão beta qualquer. E que têm um nome onomatopéico.

E em Brasília, não se esqueça: o que parece um velho IBM é, na verdade, um deputado sem a carenagem.

Escrito por Nuno às 16:14
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Recebi um selo.

Nada de filatelismo enrustido, entretanto. Ainda não desenvolvi este interesse. O maior contato que tenho com selos, é lamber - e colar na cartelinha - aqueles que qualquer um ganha quando compra um sanduíche no Subway. Subway, aquele mesmo que vende versões saudáveis e afrescalhadas do bom e velho “xis ignorância”.

Ganhei um selo para o blog.

Fiquei realmente feliz com o presente. Afinal, este blog aqui é amador, despretensioso. É a versão blog daquelas bombas do MacGyver. Tudo feito com elástico de cabelo, um clip e chiclete mascado. O gran finale quem dá, é o template, horroroso, saído das profundezas do bom gosto de algum programador do uol. Mas ele teria que ser assim mesmo, reconheço.

E não foi de qualquer pessoa.

Foi da Letícia (aka dona do babelpontocom.blogspot.com) que me repassou um selo que recebeu. A Letícia escreve muitíssimo bem, tem estilo, tem português (e inglês, espanhol, italiano...) de livro. E fala de tudo. Nunca se sabe exatamente o que vai estar postado no babel. Certeza, apenas, da qualidade do que vai ser lido. Diria, sobre visitar o Babel, algo no extremo oposto ao “é uma cilada, Bino!” - frase mítica de Pedro (aka tiozão do caminhão no seriado Carga Pesada).

Letícia, obrigado, de coração.

Ps.: o selo é este aqui: http://bp3.blogger.com/_69T5tHC8CCI/SC800iO0ZuI/AAAAAAAAAUU/alAOzdBz7x4/s1600-h/selo2.jpg

Escrito por Nuno às 11:51
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HORÓSCOPO DA SEMANA

ÁRIES (21/03 a 21/04)

Seu lado emocional estará muito afetado no dia de hoje. Tome cuidado! Não se esqueça do Prozac, nem do mantra recomendado pelo seu guru (Ainda não tem o seu? Coincidência! Nós vendemos). Não confie em pessoas usando amarelo. Deixe fluir o seu lado artístico: aproveite suas lágrimas para fazer lindas pinturas com tinta guache. Pense bem na oportunidade de vendê-las como arte contemporânea ou, então, em presentear a pessoa mais insuportável do escritório. Cancele qualquer encontro com o(a) parceiro(a). Você vai estar, digamos, um pouco chato(a) hoje. 

Comida: salsicha em lata

Sandália: havaianas


TOURO (21/04 a 20/05)

Hoje é seu dia de sorte. Aproveite para levar aquele papo com o chefe! As chances de você levar uma espinafrada estão 37,8% menores. Sabe aquela pessoa que você conheceu há muito tempo e que morre de saudade? Então, ela vai voltar! Acalme-se e não se deixe intimidar pelas rugas e pelos quilos a mais. Comece hoje mesmo aquele tão sonhado curso de fotografia kirlian. Dica: não se empolgue nas aulas de ioga. Não, você nunca vai conseguir encostar uma orelha na outra.

Santo protetor: João Bidu

Café: capuccino sem açúcar

 
GÊMEOS (21/05 a 20/06)

O alinhamento das luas de Júpiter deixa claro: é dia de se preocupar com o baço. Marque uma consulta com o seu médico e aproveite o momento para receber qualquer notícia ruim. Bons prognósticos para a vida financeira. Vença o preconceito, entre naquele boteco e faça aquela fezinha no bicho! Quando chegar em casa, aproveite para brincar com os filhos. Se não os tiver, assista novela mesmo. Tempo bom para refletir sobre a espiritualidade: seus chacras estão apontados para a energia do universo.

Fruta: tamarindo

Copo: americano
 

CÂNCER (21/06 a 21/07)

Hoje é o primeiro dia útil após o dia dez! Aproveite para torrar o seu salário antes que todas aquelas contas e prestações acabem com o fruto do seu trabalho. Leve em consideração, como nunca, o "today's fortune" do orkut. Seja mais enfático(a) quando solicitar alguma coisa. Vai por mim, a maioria das pessoas te acham um(a) banana. Use a cor do seu signo em roupas e acessórios, sem, entretanto, ferir os olhos das pessoas ao seu redor. Cuidado redobrado ao utilizar alguma escada rolante. Feche os olhos e veja flashes como aqueles de Thomas Green Morton. Ráááááááá!

Legume: nabo

Bebida: jurubeba

 
LEÃO (22/07 a 22/08)

A posição de Urano em Aquário (ou em qualquer outro lugar por ali mesmo) te disponibiliza toda a energia do mundo no dia de hoje. Então não banque, com o perdão do trocadilho, o rei das selvas! Trate seus companheiros de trabalho, cônjuges e filhos com um pouco mais de amabilidade. Dia propício para dar continuidade àquela corrente de e-mails e para terminar aquele sudoku insolúvel. No campo afetivo, crie coragem e faça aquela proposta para o seu parceiro(a). No caso de olho roxo, entretanto, use apenas gelo em escamas (gelo em cubo não traz sorte no dia de hoje). 

Personagem de novela: Odete Roitman

Música: Adocica


VIRGEM (23/08 a 22/09)

Aquela nuvem negra vai continuar te rondando, infelizmente. Mas não se desespere. A conjunção de Plutão com Saturno ocorrerá em breve, o que trará novos ares, não necessariamente bons, diga-se de passagem. Tente remarcar entrevistas de emprego e/ou provas. O dia não é bom e, assim, vale até comprar um atestado ou "matar" alguma parente distante. Concentre-se na sua relação, tenha cuidado com os próximos passos. Pense na máxima "estive à beira do abismo e dei um passo em frente". Valorize o seu currículo e leia bons livros. Comece com "o Segredo".

Elemento químico: tungstênio

Pizza: portuguesa
 

A perda de uma das moedas do I-Ching impossibilita previsão para os demais signos. Alguém disse que é heresia continuar com uma moedinha de 50 centavos e, em sendo assim, as demais previsões ficam para outra oportunidade. Pedimos desculpa pelos transtornos.



Escrito por Nuno às 05:52
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Ficava sem paciência com aquele papinho chavão que existia antes de qualquer Brasil x Bolívia. Era altitude para cá, balão de oxigênio para lá. "O time vai ficar concentrado em Santa Cruz de la Sierra e seguirá para La Paz momentos antes do jogo". Ou então, o contrário: "temendo os efeitos da altitude, a CBF decidiu adiantar a viagem da seleção para a Bolívia". Ou Equador, Peru, tanto faz. A ladainha era sempre a mesma. A não sei quantos mil metros de altitude, qualquer time de menos tradição metia medo. E os resultados realmente sugeriam que o buraco era mais embaixo. Ou mais em cima, neste caso.

Daqui do nível do mar, eu achava que era apenas um teatro aqueles jogadores sem fôlego, aqueles falsetes - que orgulhariam um Bee Gee - na hora das entrevistas. Mas como?, até o Evo Morales, com dois dígitos de taxa de gordura corporal, consegue jogar a segunda divisão boliviana!

Eu não acreditava nesta história toda de "Mal das montanhas", "mal da altitude", com hífen, sem hífen, tanto faz. Aliás, será que não existe um nome mais pirotécnico, começado com pneumo-, que justifique todos os vexames em lugares tão acima do nível do mar?

Pois bem. Na segunda quinzena de janeiro deste ano, tive a chance de ir coletar no norte da Argentina. Seria a chance de comer carne de lhama, de abraçar um cacto de verdade, com um milhão de espinhos, de experimentar mais algumas três marcas diferentes de cerveja. Trocaria, pelo menos por uns dias, a coxinha de frango pela empanada de pollo. E por falar no quitute, visitaria Salta, o El Dorado das empanadas! De quebra, o comportamento da minha pressão arterial, brônquios e bronquíolos em altas altitudes seria finalmente testado.

Saberia, enfim, se o safado do Taffarel tomou aquele frango em 1994 por falta de sorte ou de oxigênio.

El Quemado, um lugarzinho qualquer entre o nada e o lugar nenhum foi o palco da experiência. Só para constar, era para a frente de Purmamarca, em direção ao Chile. E em Jujuy que, aliás, tem empanadas melhores que as de Salta. E que só não é um estado mais bonito que Minas Gerais.

A subida começou despretensiosa e foi ficando cada vez mais estonteante, em todos os sentidos. Era um lugar maravilhoso, desértico. Todas as cores do mundo nas montanhas, nos leitos secos dos rios. E, a cada quilômetro, "água" parecia ser uma palavra mais e mais abstrata.

Andamos. Procuramos bichos. Enchemos um par de cartões de memória com todas aquelas fotos. Era um tal de fazer pose com cacto, com gente, com pedra... E parecia tudo bem. Mas chegamos a El Quemado, 4.170m, o armagedom das minhas hemácias. Não sei se houve um certo "efeito placebo" de ver uma placa marcando uma altitude tão indecente. Fato é que comecei a ficar esquisito. Não imaginava que um coração humano pudesse bater com tamanha intensidade. Lembrei de um gato asmático, desnecessário dizer o porquê. Tentava me enganar de que não teria um treco qualquer. Evitava movimentos desnecessários, afinal, "era preciso evitar a fadiga". Invejei os tibetanos e torci para que, em alguma casinha qualquer, alguém estivesse leiloando alguns milhões de glóbulos vermelhos.

Denecessário dizer que tive sangue frio para tirar uma fotinha junto à placa supra citada. E que gastei alguns pesos comprando uns badulaques dos nativos que, aliás, pareciam mais bolivianos que argentinos. E que, pela animação, poderiam facilmente correr uma maratona plantando bananeira. Mesmo ali, onde oxigênio não diz muita coisa. Ironia encontrar alguns outros brasileiros, voltando do Chile, e que sorriam solidários, compartilhando as dificuldades fisiológicas.

Depois de bancar o turista, tive que trabalhar. E foi necessário correr alguns dez (não seriam cem?) metros para coletar o único espécime que valeria a viagem. E naquele momento eu entendi que não era má vontade do Jorginho quando as bolas mais mansas saíam pela linha de fundo...

Da próxima vez, vou me aproveitar da hospitalidade dos jujueños e tirar as minhas próprias conclusões quanto aos efeitos medicinais da folha de coca. E o bom é que, no meu caso, não vai ser doping.

Escrito por Nuno às 21:55
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Li uma coisa hoje que me deixou intrigado. Por dois motivos: primeiro, como alguém não inventou isso antes? E segundo, como alguém pode inventar uma coisa destas? Eis que entre uns milhões de sinapses, e trocentos tipos de neurotransmissores, surge a idéia do papel higiênico literário. Em letras amistosas, a manchete: "Empresa lança papel higiênico literário na Espanha".

Não sei se é necessário dizer que a notícia se encontra em meio às populares do portal terra. O nonsense mora ali, naquele link discreto, naquelas letras brancas. Quando me dou conta que mais uma notícia insólita pipocou na seção de política ou de economia, é para lá que eu corro. É um elixir para todas essas agruras do mundo cartesiano. A um click, lê-se: "Legisladores rejeitam proibição de calças baixas". Ou então que "Concurso elege bulldog mais bonito dos EUA". É neste nível. Imagino os debates acalorados, a apreensão dos criadores, o burburinho das senhoras cheirando a laquê. Doze litros de limonada depois, o veredito: as bochechas simétricas definiram o campeão!

Voltando à vaca fria, já é possível encomendar papel higiênico com citações clássicas. Sempre que me deparo com novidades deste calibre, lembro da minha vó dizendo "este povo não tem mais o que inventar". Pois é, vó. Isso porque a senhora nos deixou há mais de dez anos, infelizmente, e não viu ninguém jogando wii. Hoje em dia o seu balançar de cabeça seria mais enfático, com certeza.

Em uma primeira análise, o referido papel higiênico solucionaria um problema pertinente. Vez ou outra é complicado encontrar algo para ler no banheiro. Chega uma hora em que todo mundo sabe que qualquer pasta de dente contém lauril éter sulfato de sódio. Ou seria o xampu? Não tenho certeza. Não seria mais preciso folhear a mesma revista um zilhão de vezes, nem ter diariamente a impressão de que "eu já li isto aqui". Não estaria mais em pauta a apelação para joguinhos de celular ou palavras cruzadas.

Mas e quem abomina a leitura nestas condições? Que acha que a ida ao banheiro deve ser feita em alfa, sem pensar em nada? Imagino que, para estes, seria uma violação encontrar uma citação do Kierkegaard ali, de surpresa. Sem contar situações desagradáveis onde uma simples frase seria de extremo mal gosto. Que diria alguém com prisão de ventre ao ler que "Willing is not enough; we must do"? Uma raiva visceral de tudo que diga respeito à Goethe seria criada ali, no banheiro.

Alguns casos parecem ainda mais bizarros. As mães, aflitas, ensinariam aos filhos que ninguém pode usar um papel higiênico que contenha qualquer citação bíblica.

"Menino, se tiver qualquer coisa da Bíblia, você não usa mesmo! Viu?".
"Mas mãe, e se não houver outro?".
"Se vira, moleque! Não faz cocô! Ou então limpa com a cueca. Agora, se for qualquer coisa do Nietzsche, aquele excomungado, limpe-se várias vezes!".

Mais curioso ainda ler que as primeiras citações da Bíblia utilizadas são dos livros de Apocalipse, Cantares de Salomão e Provérbios. Antigamente o Apocalipse intimidava mais, acho eu. Sinceramente, acho que qualquer coisa relacionada à religião deve ser tratada com um pouco mais de tato. Mas este é outro assunto. Alguns problemas de ordem moral, extremamente desnecessários, seriam criados. Sem dúvidas.

Defensores de correntes de pensamento antagônicas encomendariam rolos com citações do rival. Em algum curso de Filosofia seria possível ouvir o comentário maroto: "Tem um papel higiênico com qualquer coisa do Kant lá, corre senão acaba!". Cada um carregaria, no próprio papel higiênico, a citação preferida. Os mais descolados teriam dois rolos, sempre à mão: um para ler e outro para usar, efetivamente. Sem contar que mais dia, menos dia, um ou outro, mais excêntrico, começaria uma coleção de recortes de papel higiênico...

Pensando assim, rápido, não consigo imaginar qual frase estaria estampada no meu papel. Sou partidário que revista em quadrinhos é o melhor tipo de leitura para o banheiro. Melhor no bom sentido, claro. "Caras" também é uma boa pedida. É apropriado saber no banheiro que o cachorro de alguém fez aniversário. Ou que tal decorador fez o último projeto da casa daquele figurão da mineradora. Revistas que tratam de celebridades, de novelas (mesmo quando não se sabe quem matou quem) têm nicho garantido em qualquer banheiro. Revistas de arquitetura também, não posso me esquecer. Em suma, acho que a diferença entre o que se lê na sala de espera do dentista e no banheiro parece ser muito sutil.

Afinal de contas, ninguém precisa ficar pensando se vai para o céu ou para o inferno, se o universo é infinito ou se o homem é mal por natureza enquanto faz cocô.

Concordo com algo que li uma vez em um banheiro ermo qualquer: "todo mundo tem o direito de cagar em paz".

Ps.: em respeito à fonte da notícia (que levou à tanta bobagem, diga-se de passagem) segue o link: http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI2767275-EI1141,00-Empresa+lanca+papel+higienico+literario+na+Espanha.html

Escrito por Nuno às 07:10
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Não acredito em reencarnação.

Mas concordo que poderia ser engraçado descobrir uma vida passada.

Não sei. Agora fiquei na dúvida. Acho que encheria o saco demais.

Eu acabaria encontrando alguns conhecidos de outras vidas. Alguém poderia insistir que foi meu/ minha amante, meu/ minha fiador(a). Alguém poderia espalhar que eu usava cueca por baixo do espartilho na idade média. Ou que eu fui conhecido como “Sándor, o flatulento”, na Hungria do século XI. Sei lá se naquele tempo existia Hungria. Não me lembro.

Tá. Reconheço que alguma coisa poderia ser digna de lembrança.

Imagine a glória em descobrir que fui um ostrogodo? Isso. Eu fui um OSTROGODO. Em caixa alta mesmo. Um bárbaro, no sentido mais literal possível.

Acho que vivi no século quinto. Preciso consultar a wikipédia para saber. Ok. É isso. Vivi metade em cada século. Séculos quinto e sexto.

Adorava minha esposa Frida que era, na verdade, uma burgúndia. Frida era a típica mulher goda, sem trocadilhos. Engraçado que lembro o nome dela e não me lembro do meu. Nem do nome dos meus filhos, eu me lembro. Tive cinco com Frida, isso é certeza. Guardava o cordão umbilical de todos eles. E depois fazia um ritual muita em moda naquela época. Para garantir a sorte dos meninos, fique claro. Fora outro filho, com a mulher do taberneiro. Não pude resisitir, e o único contraceptivo da época era o coito interrompido. Sempre fui contra essas heresias. Coisa de bárbaro old school.

Lembro que me cansei de ficar olhando o Mar Báltico. Cansei da vida de ogro ostrogodo. E recebi uma revelação do deus ostrogodo. “Junte hordas de vândalos barbudos e invada a Itália! É tempo de sangue, caçador maroto. Eu serei contigo”.

Transformei milhares de cidadãos comuns em máquinas de guerra. Enredo de filme ruim, admito. Qualquer semelhança com qualquer um dos 137 filmes que tratam do tema “transformar homens em guerreiros” é coincidência. Mas no meu caso foi bem mais fácil. A sede de sangue e de macarrão ao pesto legítimo corria nas veias daqueles homens. Não era treinar bundões do naipe do Mel Gibson.

Invadir a Itália era preciso!

Despedi-me de Frida e dos moleques. “Depois eu te busco, nega”. Comi os últimos 23 galetos na terra dos meus ancestrais.

Partimos.

Um enxame de gafanhotos.

Levamos a destruição por onde passamos. Aquela disputa de inimigos mortos entre o Legolas e o Gimly, além de plágio, não foi nada. Coisa de elfo loiro fracote e de anão complexado. Afiava o machado nos pré-molares das vítimas. Fazíamos aquilo que gostávamos. Além de ter em mente a necessidade de garantir o queijo parmesão dos filhos. E o salame. E a aquelas armaduras que, embora afeminadas, tinham estilo.

Matamos. Esquartejamos. Brincamos de cabo de guerra com as tripas alheias. Fiz coleção de caveiras. E de cintos de couro também. Afinal, eu era um bárbaro fashion.

Chegamos à bota.

Como vogons dissemos “toda resistência é inútil”. E foi assim.

Deixei de matar apenas quando descobri o espaguete à carbonara. Era melhor que sangue.

Esqueci da guerra e, para a Frida, mandei uma mensagem. Uma que dizia tudo. “Vem nega, que eu tô ocupado”.

Afinal, tinha que aproveitar. Comida demais. Vinho demais. Escravas demais (não necessariamente nesta ordem).

Era a santíssima trindade para um ogro ostrogodo.

Escrito por Nuno às 18:56
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Dia destes comprei um Tang de cajá e um Tang de graviola. Não lembro bem se foi no mesmo dia. Sei que comprei. Gastei algum real e meio do meu salário com uns pozinhos de gosto duvidoso. Antes que alguém queira me colocar em maus lençóis, esclareço: Tang não é uma gíria para qualquer outro pozinho branco fora da lei. Era Tang mesmo.

Algumas horas antes, um amigo havia me oferecido um waffer. Aceitei, achando que se tratava do básico: aquela massinha bem fina e crocante, recheada com chocolate. Claro que sem ilusões quanto ao chocolate: ele não vinha da Bélgica. Muita sorte se não viesse da China. Posso até imaginar aquele mundo de chineses mal pagos trabalhando em um fábrica abafada, misturando água, soro de leite, leite em pó, extrato de cacau e algum conservante com aqueles nomes de asteróide. E exportando batalhões de conteinêres de chocolate para o ocidente. Colombiano, porto-riquenho ou não, fato que o waffer não era de chocolate. Era de doce de leite. Tentei conter a expressão de descrédito, a rebelião de todos aqueles músculos que levam àquela cara clássica que se faz em situações onde não se pode acreditar no que se ouve.

Por educação e curiosidade, experimentei a bolacha. [Bolacha mesmo, explico. Na minha terra, biscoito é o de polvilho. Tudo o mais é bolacha]. E a tal Bono de doce de leite era estranha. Imagino que manteiga de baleia tenha um gosto parecido. Uma única bolacha foi capaz de me deixar no céu da boca aquela camada hidrofóbica de gordura hidrogenada.

Lembrei, saudoso, do waffer de chocolate que comia quando era criança, deitado, assistindo qualquer desenho na TV e bebendo leite frio.

É, meu caro, os tempos são outros... Estamos presenciando a invasão sorrateira dos sabores malignos, a disseminação desenfreada de aromas e gostos pouco ortodoxos. Por todo os lados, as quimeras pululam: Fandangos de churros, Nescau guaraná, Cheetos x-burguer, Bis de laranja, Toddy floresta negra.. Até a sagrada cerveja foi maculada: já existe uma tal “Crystal Fusion Guaraná”, além da não menos excomungada Skol Lemon. Saudade dos tempos onde o mau uso da cerveja não era assim tão disseminado, época em que só um ou outro tiozão colocava um rodelinha de limão na tulipa gelada...

Destes todos que citei, o que mais me amedronta é o Nescau guaraná. Imagino que este purgante seja efervescente... Não sei se tenho menos papilas gustativas que um ser humano normal, mas não consigo conceber a sutileza do sabor deste chocolate amazônico. Sem contar a propaganda. Um indiozinho com xistose chega, esbaforido, à aldeia, com um embrulho estranho. No segundo take, aquele bando de figurantes, metidos à Caramuru, olham, surpresos, o pote marrom inofensivo. Alguém tem a brilhante idéia [chavão] de chamar o sacerdote que, após a pajelança clássica, traz de algum plano paralelo um copo de leite. Colheradas generosas do Nescau são misturados ao leite imaculado, que toma aquela cor insossa. Um índio imberbe, de olho na filha do cacique, toma para si a responsabilidade de toda a aldeia. Suspense. O copo é esvaziado com todos aqueles barulhos característicos. O herói exibe, orgulhoso, o primeiro bigodinho da sua vida...

A Fanta vem flertando, novamente, com estas heresias. Há alguns anos, encontrávamos por aí Fanta maçã, Fanta citrus... Mais alguma? Não me lembro bem. Apesar de ser um sabor maligno, a Fanta citrus foi, durante um tempo, o melhor cura ressaca da praça! Não havia nada que resistisse àquele Fanta sal de fruta. Nenhum bicarbonato de sódio era páreo para aquela latinha esverdeada, para todas aquelas borbulhas salutares. O arroto que seguia o primeiro gole era memorável, era o gatilho para possíveis recordes em campeonatos da modalidade. Seguiu-se um tempo de calmaria, onde apenas os sabores clássicos desfilavam. Fanta uva e Fanta laranja, o supra-sumo da ortodoxia dos refrigerantes.

Eis que um dia destes sou surpreendido por todo o rebuliço relacionado aos novos vilões de Fanta. Era alguma coisa “Fanta sabores do mundo”. Fui vítima da curiosidade. Experimentei a tal Fanta laranja + manga, representante da Tailândia no alardeado concurso de sabores estranhos. E, sem querer encarnar o fariseu, reconheço: não era ruim. Um gosto dispensável, todavia. Nada que se tome mais de uma vez.

Em matéria de sabores malignos, entretanto, a Fanta engatinha. O arauto do apocalipse atende por “Jones Soda Co.”, que já colocou no mercado refrigerantes de ervilha, purê de batatas com manteiga... Imagino um almoço de domingo, abalado por um diálogo inimaginável: “Mãe, tem ervilha?”, “Tem sim, querida. No empadão e no refrigerante”.

Problemas com o refrigerante, todavia, não são o que me preocupa. Em parceria com uma vodka razoável, qualquer porcaria do mundo tem seu lugar ao sol. Fico preocupado é com os Fandangos da vida. Fico preocupado com um mundo onde é possível escolher entre uma dezena de sabores de bolacha. E enquanto isso, maravilhas como a goiabinha e o presuntinho da Piraquê, ou a célebre cremogema, escasseiam nos mercados.

Não sei qual a próxima novidade que me espera nas inofensivas prateleiras do mercado. E pensando bem, nem quero saber. Prefiro ficar tomando a minha Fanta Uva e comendo meu Fandangos de queijo.

Escrito por Nuno às 17:54
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Tentei me enganar durante algum tempo, achando que escreveria com uma certa freqüência neste blog ridículo. Se bem que escrever alguma bobagem, de dois em dois meses que seja, ainda pode ser considerado “blogar esporadicamente”. Hoje me deu vontade de falar nada de merda nenhuma. Do nada. Estava aqui, ouvindo B-52's e criando coragem para ler um artigo, mais especificamente “Birth-Death Models in Macroevolution”, e lembrei que tenho que fazer valer, por aqui também, o dinheiro que o uol me morde mensalmente.

Não tenho assunto nenhum para escrever. Poderia tentar falar da reprodução assexuada em paramécios. Ou do penteado do primeiro ministro de qualquer país obscuro. Da dificuldade em se abrir uma lata de atum quando se está com a mão molhada. Divagar, com pesar, sobre o fato que o boteco mais doido de Curitiba não aceita Visa. Enfim, coisas de extrema importância.

Pior que eu até teria sobre o que falar. Nestes dois meses aconteceram coisas dignas de menção (a propósito, “menção” é uma palavra desgraçada de feia!). Mas tenho muita preguiça de escrever sobre estas coisas... É chato escrever sobre coisas totalmente reais. Não sempre, mas hoje é. Ainda mais hoje. Estou aqui pensando no relatório do dia 15, no ensaio que deve ser entregue na quinta, no texto para ler para amanhã. Bobagem ficar lembrando e tentando escrever sobre estas coisas que sempre atormentam os seres humanos às segundas. E mesmo no caso de coisas mais aleatórias. Ninguém precisa saber que eu ainda continuo com o mesmo medo insano de pisar em uma gilete sempre que vou tomar banho.

Mas uma coisa eu tenho que escrever. Não é nem preciso dizer que vou escrever algo extremamente dispensável e idiota. O tipo do assunto que deveria ser classificado em “não percam seu precioso tempo escrevendo sobre isso, crianças”.

É que ontem fiquei realmente preocupado. Madrugada, e não conseguia dormir na hora “certa”, como sempre. E normalmente, pelas 4:20h, tenho um certo impulso de ver o que está passando na Record. Deve ser encosto. Ou coisa do tipo. Afinal, sei que vai ser o mesmo pastor magrelo, falando de macumba. Ou de rituais, como queiram. Barbada! Só é difícil saber se naquele dia, o “enigma” desvendado vai ser o da cachoeira, do cemitério ou da mata virgem. Ontem foi o da cachoeira. Povo estranho, viu? O cara sai de casa e vai a uma cachoeira linda para procurar macumba! Nada de cerveja, nada de mulher de biquini. A única cachaça e a única comida são do santo. E, por comida, entenda-se farofa. Apesar de que ontem tinha material para uma salada de fruta mega-ultra-blaster.

Sei lá. Quando é no cemitério ainda vai do cara manter a seriedade. Normalmente simpatizo com cemitérios, mas não tenho vontade nenhuma de tomar cerveja lá. Acho que só os góticos sabem o prazer que existe no programa “álcool + cemitério”. O que não vem ao caso, aliás.

A questão aqui não é a gastronomia dos enigmas da Igreja Universal do Reino de Deus. É outra. Demorei um tempo para perceber, mas percebi: agora, os telepastores da madrugada usam preto. PRETO! Preto escuro, preto pacarai! Lembrei, saudoso, dos dias em que eles só usavam branco. Fosse para falar do Vale do Sal, da Sessão do Descarrego, ou de qualquer outra coisa do naipe, eles só usavam branco. Particularmente, gostei do preto. Nestas circunstâncias, melhor parecer um segurança zeloso que um enfermeiro aloprado. Sem contar que, segundo a Glorinha Kalil, “preto emagrece, querido!”.

Imediatamente vi tudo sobre uma ótica totalmente maniqueísta: se antes eles usavam o branco para simbolizar o bem, agora eles estão do lado negro da força. Medo! Muito medo! Já até sei quem é o Darth Sidious. E pensar que, de agora em diante, minhas eventuais madrugadas televisivo-esotéricas serão povoadas por aspirantes a Lord Sith... Mas não tenho dúvidas que os da Record aqui de Curitiba (RICTV, no caso) sejam apenas soldados. Os caras sempre ficam com os horários mais ingratos, sofrendo para receber um telefonema. Os mais graduados devem falar perto da meia-noite, hora mais cabalística e com mais audiência. E os Sith moram em São Paulo, pelo que imagino. Patentes pentecostais a parte, seria melhor que todos eles continuassem no branco básico. Pareceriam, sem maiores problemas, Imperial Stormtroopers de respeito.

Escrito por Nuno às 22:09
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Um fato ocorrido no sábado me faz continuar com este discurso vão e chulo sobre 'arte'. Ou sobre merda, não sei bem o limite. Aliás, neste caso específico, imagino que o chavão 'só Deus sabe' é temeroso. Dependendo do paradigma em questão, nem Ele mesmo é capaz de discernir o limite coprológico da questão.

É que fui ao MASP com a Elaine e com o Bruno, sobrinho dela.

Sobre São Paulo, tenho a dizer que é uma cidade muito doida. Sempre é. Parafraseando o meu amigo Carro Velho, São Paulo é uma cidade “subjestivamente qualificada”. Ainda mais em um dia quente e seco. A sensação era de 'cabelo na chapinha', ou coisa do tipo. E constatei, de novo, o que ouvi dias atrás: “Paulistano é privilegiado. Vê o ar que respira!”.

O motivo principal da viagem não foi o MASP. Não sou culto o suficiente, não faço artes plásticas e nem tenho grana para isso. A renda média do brasileiro cresce, diz o Lula, o IBGE, o bispo, o Ratinho, o capeta. Como se trata da média, subentende-se que o mar não está para qualquer peixe.

Pindaíba à parte, fato que fui para São Paulo.

Fui ao casamento do primo da Elaine. E casamento sempre tem aquela coisa de pega sapato, compra gravata, arruma camisa e o diabo. Passei, com gosto, por este calvário semana passada. Vestir-se para ocasiões formais é complicado. Prefiro roupa de proletário. Mas não vou ser hipócrita e admito: usar terno, de vez em quando, é bacana. Faz bem para o ego saber dar nó na gravata e não precisar comprar aquelas com zíper, velcro ou abominações similares.

O meu maior problema é com as ocasiões que exigem o referido traje e não com a vestimenta em si.

Chateia apenas o fato que calça social faz coçar lugares extremamente estranhos. Lugares desconhecidos para quem nunca vestiu uma merda destas. Não é o saco, nem a virilha, nem a coxa, nada. É um lugar que, pelado, não se acha nunca. Só existe, e coça, quando se veste a dita roupa.

Escolhi, com cuidado, a gravata, a camisa e fui. Tomei cuidado com a escolha, claro. O limite entre estar apresentável e parecer uma ilusão de ótica é sutil.

O casamento foi muito bacana. Um lugar bonito, pessoas bonitas. E nada de marcha nupcial. A noiva entrou com o quarto movimento da nona de Beethoven. Arte! Com todas as letras! Coisa absurdamente bonita, aquela moça linda com aquela música maravilhosa e o noivo lá esperando no altar. Alex DeLarge, se convidado, precisaria de uma camisa de força para se comportar. A escolha da música, por si só, valeu o casamento. Poderia até faltar bebida na festa, que estava perdoado. Desde que faltasse refrigerante apenas, é claro. Festa sem cerveja não dá. Mas tinha. À rodo, graças a Deus.

Antes do casamento fomos ao MASP. Como disse, o Bruno, a Elaine e eu. O Bruno é um menino bonito e esperto, e tem uns oito anos, eu acho. Encarava como maravilhosa a experiência de ir a um museu como aquele. Passou o dia todo esperando o momento de entrar naquele salão de escadas com corrimãos vermelhos.

Tratava-se da exposição “da Bauhaus a (agora!)”, com obras da coleção da DaimlerChrysler. Alguma coisa deste tipo.

A minha pira e a da Elaine estavam garantidas, queria ver a dele.

Não sei bem como descrever a cara dele nos variados momentos. Ele gostou de várias coisas, fato. Principalmente de uma obra que tinha umas bolinhas que se mexiam. Eu também gostei de muita coisa. Vi, pela primeira vez, uma obra do Andy Warhol. O cara bancou o Velvet Underground, e isso seria suficiente para merecer admiração. Gosto das coisas dele. Mas apenas porque acho bonito. Não perderia cinco minutos da minha vida olhando para uma trama de canos cobre (que também vimos lá) apenas porque 'Andy Warhol fez'. Nem pagaria horrores em uma tela branca apenas porque ele pintou ou não pintou. Não consigo tirar explicações místicas sobre nada destas coisas. Para mim, o que importa é ser ou não bonito.

O Bruno começou a repensar o conceito de 'obra de arte' quando chegamos ao seguinte cenário: uma placa de metal, ligada a um motor de geladeira, que fazia a placa se congelar de uma maneira qualquer. Para completar, uma sandália xadrez sobre a placa. Tentou desfazer-se da perplexidade, perguntando “o que é isso, tio?”. Também não havia entendido o que o cara quis com aquila obra e, assim, não podia engabelar a criança. Fui ler o que diziam sobre a obra, para ter uma luz. Mas não tive coragem de dizer coisa tão sem sentido para o rapazinho. Era algo sobre os relacionamentos humanos. Seria conivente com essa merda se dissesse alguma coisa a ele. “Coisa feia, né?”.

Do outro lado do corredor, uma coisa com um (now!) escrito. Ele e eu fizemos a mesma cara de “o que este trem estranho faz aqui?”. Ficaria melhor em um ponto de ônibus ou em uma loja de televisão de tela plana. Na minha modesta opinião, é claro.

O (now!) era esse: http://www.sammlung.daimlerchrysler.com/contemporary/07_08_thecollection_brazil/index_g.htm

“Coisa feia, né tio?”

Nunca na minha vida vou me esquecer da cara e da frase do Bruninho quando viu uma varinha (sei lá que diabos era aquilo) cheia de umas mega miçangas coloridas. Vermelho, preto e branco eram as cores daquilo. Minha primeira impressão foi a de um graveto cheio daqueles discos de marshmallow, aqueles de assar na fogueira. Sem desmerecer o criador da varinha de miçanga, mas se alguém dissesse “que isso aí? Ah tá! Leva para o achados e perdidos. Um hippie que estava aqui há pouco deve ter esquecido”, estaria de bom tamanho.

Olhei para a Elaine e vi que ela era solidária. Ainda bem. Se ela dissesse que havia entendido o que o cara quis com aquilo, teria medo do futuro da nossa relação.

O rapazinho de camiseta hot wheels lançou um olhar colérico, espantado e a frase auto-explicativa: “Isso aí, até eu faço!”. Pois é Bruninho. Você faria sim. Aposto que, como torcedor do Coritiba, a única diferença seria na cor dos marshmallows que você escolheria.

Eu entendo a carinha dele quando perguntamos “o que você mais gostou?”. Nem a loira siliconada, em trajes sumários, habitando um dos quadros foi lembrada. Não sei se pela pouca idade ou pelo rancor da varinha dos marshmallows. Quando falamos 'museu', talvez ele tenha imaginado que entraria na Capela Sistina. Que veria pinturas com molduras douradas, esculturas assombrosas, coisas que não cabem um “isso aí, ate eu faço”.

Meu conselho quando revê-lo será o seguinte: espete os marshmallows na varinha e tente vender para a DaimlerChrysler. Aliás, não venda. Troque por um PT Cruiser Classic.

Escrito por Nuno às 01:52
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Dias atrás vi uma moça sentada na praça, lutando para pintar um quadro.

Tinta a óleo, ao que parecia. Era o que o nervosismo dela sugeria, pelo menos. Pensei comigo, “é nega, se pintar errado vai ter que esperar secar”. Antes que algum desalmado pense, não, eu não quis agourar o quadro da loura oxigenada.

Reduzi o passo e, aproveitando-me dos óculos escuros, fiquei reparando, um pouco, o empenho alheio.

Ela pintava uma araucária, com os prédios ao fundo. Acho que era isso mesmo. Mesmo se estivesse parado, seria difícil ter certeza. A obra de arte ainda estava no início. Achei curioso quando ela fechou um dos olhos, mordeu a língua e, valendo-se de um dos pincéis (ou seria uma espátula?), media a relação de tamanho dos seus modelos. Ou então admirava o instrumento de trabalho, à luz da manhã. Sei lá, tem doido para tudo.

Acabada a operação, eu já havia passado por ela. Afinal, eu ainda andava. E mais devagar do que aquilo, só se eu parasse, pedisse licença e começasse a engabelar a moça com um papo sobre o bigode do Dalí. E este não era meu objetivo. Nunca fui caçador de artistas plásticas de meia idade. Agora muito menos.

Talvez um dia este quadro esteja pendurado em algum lugar importante. E aí um crítico qualquer, com aquela cara que só os críticos de arte têm, vai falar alguma coisa a respeito. Merda, muito provavelmente. Pelo menos para mim, seria. Como é quase sempre, diga-se de passagem.

O cara pode dizer algo do tipo “a araucária foi concebida com uma grande dose de liberdade estética”. Ou então, que “os tons de azul são contingentes à mediocridade da paisagem urbana enquanto beleza fugaz”.

Seria engraçado presenciar o surgimento de uma pérola de sabedoria assim, deste calibre. Principalmente para quem viu a mulher medindo a araucária.

“Liberdade estética é o meu testículo esquerdo” pensaria, candidamente.

Não tenho nada contra os críticos, fique registrado. Vai ver porque eu sou um grosseirão mesmo e não entendo destas coisas. Mas é que este povo fala umas coisas estranhas.

Lembrei daquele “como fazer um poema dadaísta” (ou coisa do tipo), do Tristán Tzara. É só procurar no google, dar um ctrl+c e temos:

“Pegue um jornal
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.”

Sei lá se esta é a versão original, não importa. Peguei de um site pouco confiável mesmo. Fato é que o Tristán Tzara tinha uma franja ridícula!

Mas voltemos ao caso do poema e dos críticos.

Não tenho tesoura, sacola, nem saco para fazer como o guru de franja ensinou. Mas vou fazer o seguinte: vou abrir o “Laranja Mecânica” (traduzido) e selecionar as segundas palavras das vinte e uma primeiras páginas e fazer um poema dadaísta.

“vai vai disse bom
bolão a só satélites
não num rápido tapado entenda
pequenos eu só que Johnny
acalmei pobrezinha eslovos”.

Peço perdão, publicamente, ao Anthony Burgess por usar aquele livro divino para escrever uma merda destas.

A idéia é a seguinte: se um crítico qualquer, ou alguém interessado, lesse esta merda sem conhecer meu método infame, o que diria?

“O rapaz quis libertar-se dos paradigmas perversos do estilo. Enquanto método, fique claro”.

“O poema é a resposta de uma alma aprisionada. Sem mais”.

Merda. Merda mesmo. Daquelas, pós feijoada.

Um saco isso tudo.

Se alguém disser que esta merda faz sentido, melhor não me falar nada.


Escrito por Nuno às 17:32
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Passei por São Paulo ontem, voltando para Curitiba.

E São Paulo é garantia de outdoor bizarro. Por isso, presto atenção sempre. Vez ou outra demora um pouco. O tal outdoor só aparece lá perto de Osasco, ou, então, no começo da marginal Pinheiros. Mas não é preciso roer as unhas. Nem que seja uma faixa, um muro pintado, perto do Rodoanel ou do Jabaquara, lê-se alguma coisa estranha.

Desta vez, não demorou nada. Ali, em frente ao Canindé, em letras garrafais, estava escrito:

MULÇUMANOS CRESÇEM
CRISTÃOS DECRESCEM
SEM IDEAL DIVIDIDOS

Logo percebi que mulçumano é algo próximo a iorgute, cardaço ou largato. E estava claro que, pela clareza e ortografia, se tratava de algo relacionado a alguma igreja-da-sarça-ardente-pentecostal-do-fogo-santo-dos-últimos-dias. Ou algo parecido. Para ser sincero, não sei muito bem. Imagino que tenha alguma relação com aqueles inúmeros outros outdoors que também cheiram a neopentecostalismo insano.

O que dizer da frase de forte cunho dadaísta, “INCIRCUNSISOS/ MEU TEMPO/ JULGO TODOS”? Penso na cara do pai, interpelado pelo filho, a caminho da escola: “Pai, me explica o que ta escrito ali? Não entendi direito.”

Este é só mais um, além dos mulçumanos que cresçem. Tentei memorizar outros destes slogans dos últimos tempos. Desde que vi o primeiro, procuro por mais. Mas em respeito à perplexidade alheia, abdico do direito de postá-los.

De tudo, o que acho mais interessante é a lógica de telegrama existente na construção destas frases. E sempre fica a dúvida: é possível fazer uma análise sintática?

Como disse, os cristãos que decrescem estavam em frente ao Canindé. E ainda faltava muito. A probabilidade de ver alguma outra coisa de forte apelo evangelístico era grande.

Chegando à Ponte das Bandeiras, a confirmação. Um Cristo de barba escanhoada, olhos azuis, e cabelos claros, com um sorriso de Monalisa, apresentava-se em um outdoor da LBV. Pois é. Faz-se spam de Deus hoje em dia.

E no meu caso, o spam teve desdobramentos. O Cristo da LBV, provavelmente escolhido a dedo por Alziro Zarur, me faz respirar o juízo final. Desde criança. Não sei se sonhei, ou se imaginei uma vez. E, desde então, é ver aquele Cristo e pensar no dia do julgamento.

Liguei o rádio e procurei o programa do David Miranda. Afinal, aquele momento precisava de uma trilha sonora. E nada mais fim dos tempos do que o “Glóóóóóóóória a Dióóóóóóós”, em alto e bom portunhol do missionário.

O Cristo da LBV era o ícone máximo do que, quando criança, imaginava ser o juízo final. Um juízo final sem graça e pouco pirotécnico, reconheço. Mas apavorante.

Tudo sempre se passava no quintal da casa da minha avó. De repente o céu ficava muito escuro e se abria. E do nada, aqueles três inimigos do Superman (Zod, Non e Ursa) começavam a rezar algo parecido com um pai nosso, em um volume ensurdecedor. Os habitantes da Terra acompanhavam, em uníssono, a liturgia, lendo a oração que era projetada no céu, lembrando aquele começo do Star Wars.

O passo seguinte era estranho e igualmente assustador. Formavam-se filas enormes, e as pessoas carregavam seus corações nas próprias mãos. Enquanto isso, Zod, Non e Ursa continuavam lá em cima rezando.

De repente eles paravam. A fila parava. Não se ouvia som algum. E Jesus, no caso o Cristo da LBV, aparecia no céu, acompanhado de sons de trombeta.

Nunca soube o que acontecia depois disso. Acho que nunca tive coragem de continuar imaginando. Tinha medo, medo mesmo. E a tendência era piorar. A minha dramatização ainda não contava com os cavaleiros do apocalipse, nem com dragões, fogo, enxofre.

Credo. Penso se é normal passar por isso quando se é criança. Devia ter medo de fantasma, de bicho papão, do diabo que seja.

Mas não do Cristo da LBV. Nem do juízo final.

Lembrando destas coisas vejo que, quando criança, misturei muita estória do Júlio Verne com passagens do Apocalipse.

Ainda bem que, naquela época, ninguém ficava apregoando por aí que os mulçumanos cresçem.

Poderia ser bem pior.

Escrito por Nuno às 14:51
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Sei lá, mas hoje eu seria uma ameba. Sem problemas. Sem ressentimentos.

Não sei porque todo mundo acha isso ruim. Não deveria ser ofensivo dizer “Fulano, você é uma ameba”.

As amebas têm carioteca e isso basta.

Poderia ser uma ameba de vida livre. Ficar por aí, exercitando meu vacúolo pulsátil. Sem cartão de crédito, sem ter que fazer barba, sem hora pras coisas. Eu não me preocuparia com o índice Nasdaq, nem com o fator de impacto dos periódicos. Não faria diferença alguma ser quarta-feira ou domingo.

Volta e meia eu prolongaria meus pseudópodos e fagocitaria uma porcaria qualquer. E isso seria suficiente por algum tempo.

Há certas vantagens. A começar pelo nome. Eu teria orgulho de ser uma Entamoeba hartmanni ou então, uma Iodamoeba butschilli. Ninguém precisa ser um doutor em línguas latinas para saber que Homo sapiens é um nome sem graça.

Poderia ser, também, daquelas amebas mais jedi, aquelas que tem uma teca. Afinal, parece seguro viver com alguma coisa mais resistente em volta de si mesmo. Seria como viver dentro de um ovo, eu imagino. Nada de airbags, nem de band-aid. Não precisaria de capacete nem jaquetas com kevlar. Toda a proteção do mundo ao meu dispor.

Mas não sei se eu perderia a chance de ser uma ameba patogênica. Humano, penso como seria desagradável viver no intestino alheio. Mas em sendo uma ameba, seria o paraíso. Passar meus dias no ceco, fazendo expedições esporádicas ao íleo, talvez. Inserir meus pseudópodos lascivos nas mucosas alheias. Merda seria a ordem do dia. Sempre. E viver na merda seria objetivo de vida.

Isso sem pensar nas amebíases extra-intestinais. Já ouvi falar sobre algumas delas. As amebas são nervosas, diga-se de passagem. Existem milhões de possibilidades para uma ameba.

Lembro-me de quando fiz estágio na parasitologia. Do ritual de preparação do cocô. Dos métodos de Lutz, Ritchie, Kato-Katz, Willis, Baermann-Moraes. Esta merda toda, sem trocadilhos.

E era a glória para mim achar uma ameba nas amostras. Eu ganhava meu dia com algo que, para o dono do cocô, era sinônimo de diarréia, dor de barriga, flatulência. Mas eu não pensava nisso. Tinha pena quando sabia que era criança, apenas. E mais pena ainda quando o diagnóstico era Ascaris +++. Não quero entrar nestas questões.

Voltando às amebas, o difícil era contar a quantidade de núcleos. Sem contar os núcleos não dava para saber de qual ameba se tratava, exatamente. Entamoeba coli, Entamoeba histolytica ou Entamoeba hartmanni? Era a maior dúvida das minhas tardes do segundo semestre de 1999.

Mas eu seria qualquer delas, hoje.

Fico imaginando o contentamente em saber que, por causa de um companheiro de espécie, um Bush (ou o Lula, ou o Lulu Santos, ou o Carlinhos de Jesus, ou algum comunista) flatulento passou vergonha. Pensar que por minha causa, um show de pagode foi cancelado. A nota oficial seria algo como “Por motivos de saúde, o vocalista dos Moleques Marotos foi obrigado a cancelar o show que realizaria hoje. Vandercleidsonn teve uma pequena indisposição mas está se recuperando”. Pequena indisposição, o caralho! Diarréia brutal, meu caro. “Estava cagando sem o cu saber”, como diriam.

Ganharia o prêmio “ameba do ano”, ou coisa do tipo.

E quando ficasse de saco cheio disso tudo, a cissiparidade seria a solução. Bipartição simples, ok? Deixaria dois de mim aí no mundo, levando caganeira aos incautos. Não conheceria os prazeres da reprodução sexuada, é bem verdade. Mas seria um momento memorável da mesma forma.

Eu seria uma ameba sem problemas. E em sendo uma ameba, não escreveria uma bobagem destas.

Escrito por Nuno às 19:23
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Sonhei com a Uma Thurman um dia destes.

E antes que alguém tente especular sobre as aventuras oníricas alheias, eu explico. Não, eu não sonhei que ela e eu estrelávamos um sucesso do Cine Privé. Nada de kama sutra, carros velozes, drogas e armas de fogo.

Foi um sonho inusitado apenas.

Sonhei que a Uma Thurman morava no canto esquerdo da minha mesa-escrivaninha. A cabeça dela, para ser mais exato. Reinava soberana, em meio ao caos, aquela cabeça loira.

Ela falava sim. E abria os olhos também. Mas ela era, na verdade, um apontador de lápis. Pode parecer doentio, eu sei. Mas aconteceu.

Era colocar a ponta do lápis na orelha dela e esperar alguns segundos. Nada de botões, manivelas. Era um apontador automático, daqueles com um barulho simpático

Espero que ninguém faça uma interpretação freudiana-chavão do meu sonho. Que colocaria o lápis na orelha como uma metáfora sexual bizarra.

Entretanto, reconheço que a Uma Thurman é uma devotchka horrorshow.

Tá, eu sei que ela tem um olho muito afastado do outro. Se bem que é pouco muito afastado. Nada demais. Afastado mesmo são os dois olhos do Néstor Kirchner. Fato!

Desagradável é tocar no assunto “os pés da Uma Thurman”. Isso sim é relevante. E triste. E revoltante.

O pé dela é feio. Feio demais. Deveria figurar no top 25 do uglyfeet.com. Até hoje não consigo acreditar que ela tem aqueles pés. Não combina. Não combina de jeito nenhum. É como beber uma Guinness com uma rodela de laranja. Ou comer cachorro-quente com ervilha.

Mesmo antes de “Kill Bill” dava para perceber que o pé dela era estranho. Mas para mim o pé da Uma Thurman era um POP. Como o disco-voador foi um POP para o Ford no “A vida, o universo e tudo mais” (da série “o Guia do Mochileiro das Galáxias”).

“Acho – respondeu Ford – que tem um POP ali.

Um o quê? - perguntou Arthur.

Um POP.

Um POP é alguma coisa que não podemos ver, ou não vemos, ou nosso cérebro não nos deixa ver porque pensamos que é um problema de outra pessoa. É isso que POP quer dizer: um Problema de Outra Pessoa. O cérebro simplesmente o apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para ele, não verá nada, a menos que saiba o que ele é. A única chance é conseguir ver algo olhando de soslaio.

Ah – disse Arthur -, então é por isso...”

Mas naquela cena da Beatrix Kiddo “reanimando” o pé na caminhonete, eu consegui ver. Foi chocante. Terrível. Algo comparável a descobrir que a Audrey Hepburn tinha as costas peludas.

Nestas horas, eu tenho minhas dúvidas se a Uma Thurman não é uma farsa. Um andróide, o que seja. A Irene, a Poison Ivy e a Mia Wallace não teriam um pé feio daqueles. Ainda mais o pé! Que fosse o pâncreas, a supra-renal, o baço. Mesmo a mão. Mas o pé não.

E tem um agravante. Eu não a conheço pessoalmente. Ela pode ser uma farsa mesmo.

Aliás, vi “ao vivo” apenas duas mulheres famosas (que aparecem na TV, para ser mais exato).

Uma vez passei perto da Adriane Galisteu no aeroporto da Pampulha, isso há alguns anos. A lembrança que tenho é a de que ela era linda pessoalmente. Mas não sei não.

Eu havia acabado de sair do Mineirão, Galo 2x1 Fluminense, festa. Eu estava um pouco bêbado ainda. E ela estava de boné, e só tirou os óculos escuros por alguns segundos.

Acho que não vale.

Outra vez foi a Daniele Hypólito. Saindo do supermercado, aqui em Curitiba, vi uma trupe de alguns baixinhos. E uma mulher mais alta, a Branca de Neve do grupo. Entre eles, nossa famosa ginasta.

Faço parte da minoria que acha a Daniele Hypólito bonitinha. Sou exército de um homem só entre as pessoas que conheço. E quase fui espancado em praça pública por isso. Sustentar esta opinião faz com que eu seja motivo de chacota entre alguns amigos.

Mas o que eu posso fazer? A menina é baixinha, usa (usava) aparelho, tem uma carinha de Gremlin... muito puppy!

Nada comparável à Uma Karuna Thurman, entretanto.

Aquela do pé feio.

Espero ter sonhos que não sucitem tais dilemas.

Tenho esperança de sonhar com coisas mais simples. Uma lata de milho verde seria bom. Ou então uma barraquinha de churrasco grego.

E no caso do churrasquinho, espero que ninguém faça uma interpretação freudiana-chavão do espeto.

E calce as meias, Uma!

Escrito por Nuno às 14:51
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Hoje acordei quase onze horas. Normal.

Tomei banho, coloquei lente, comi qualquer coisa. Aquelas coisas automáticas de todo dia. Normal.

Peguei meu lixo, desci. Normal.

Estava, como um bom cidadão, separando meu lixo reciclável e, do nada, o porteiro pragueja: “Que absurdo!”.

Não foi um “que absurdo” comum. Nada que se diga quando uma barata aparece onde não deve.

A normalidade do dia acabava ali.

Imaginei que se tratava de algum cano que estourou de repente. Ou então que fosse o vento, levantando a saia de alguma vizinha merecedora de um “que absurdo” que escapa, sem querer.

Sei lá, alguma coisa normal.

“O que foi, seu Zé?”

(Zé é um nome fictício, antes que alguém queira me processar).

“Você já viu aquela propaganda de remédio, que mostra um macaco encurvado, que vira homem?”, ele pergunta.

“Vi sim”.

Imaginei o que viria. Torci muito para que não fosse o que eu estava imaginando.

“Aí o stress faz o homem andar encurvado de novo, que nem macaco. Stress!” Soltou um “Afff” proporcional à indignação que sentia.

“Sei como é, seu Zé”.

“Um absurdo isso. Esse povo fica insinuando que o homem veio do macaco”.

“Nosso Senhor criou o homem”, disse ele, em tom profético.

Ai. Fiquei tenso. Um assunto sério. Meu pior medo logo depois de acordar.

Fiz a melhor cara de paisagem que pude.

“Imagina? Eu, você, todo mundo, ex-macacos! Deus fez tudo e depois fez o homem! Somos a criação mais importante. Deus criou tudo e mandou o homem cuidar, ser senhor”. Pude sentir que ele falava sério.

Por mim sem problemas, pensei. Ele pensa o que pensa, eu penso o que penso e pronto.

Mas aí, estragou a bicicleta.

“Você não acha um absurdo alguém sugerir que você veio do macaco?”

Pronto. A pergunta que eu não queria ouvir. Agora eu teria que dar minha opinião. Não poderia sair pela tangente.

Dei um sorrisinho político, fechei os olhos e mandei:

“Seu Zé, sinceramente, isso não faria muita diferença para mim não. Se Deus me criou com as próprias mãos ou não, não é algo que me preocupa”.

Silêncio embaraçoso.

Sorri, disse bom dia, e saí.

Percebi o “tsc, tsc” dele. O “essa juventude” ele deixou para a próxima.

Mas ele ficou bravo comigo.

Espero não ter problemas com a correspondência agora.

E aquele diálogo ficou na minha cabeça. Isso que foi complicado. Odeio pensar nestas coisas pela manhã.

A primeira hora depois que acordo é sagrada. Nada sério pode passar pela minha cabeça enquanto enzimas, hormônios e todas aquelas coisas complicadas de aula de bioquímica, tentam elevar minha temperatura corporal.

Mas estava feito.

Fiquei pensando sobre aquilo enquanto caminhava até o ponto de ônibus.

Pensei no quanto é estranho termos posições tão contrárias.

O seu Zé é cristão. E eu também sou. Deveríamos acreditar em uma coisa pelo menos parecida.

Somos cristãos diferentes, reconheço. Ele vai à igreja e eu não. Ele se importa com certas coisas e eu não. E vice-versa.

Mas mesmo assim, é estranho.

Ele tem uma história bonita de vida, como me contou outra vez. Fez isso, aquilo. E achou que era hora de parar. Deus queria outra coisa. Aí ficou bem.

Penso que isso é o que realmente importa.

Sei lá. Na minha opinião, um dos papéis mais perniciosos da igreja é este.

Enfiar na cabeça de todo mundo que somos superiores. Que somos senhores de tudo o mais.

Penso se isso não é um argumento meio medieval. Aquelas coisas dos reis absolutistas. “Precisamos de uma razão para sermos superiores e dizimarmos todo o resto do mundo, por favor”.

“Foi Deus que mandou. Deus nos fez diferente. O poder é nosso” parece ser uma boa desculpa. E foi. E é.

Vamos ferrar o mundo inteiro. Afinal, Deus nos deu poder sobre a criação.

Alguém pode argumentar que “Deus quer que cuidemos do mundo com responsabilidade”.

Com todo respeito, responsabilidade é o meu ovo. Poucas pessoas sabem gastar menos que ganham...

Quem vai se interessar por uma floresta? Uma salamandra-ruiva-de-chifres-amarelos-da-namíbia?

Não sou defensor chato da natureza. Se for preciso matar uma cobra em uma trilha, eu mato. Já matei aliás, e fui durante criticado pelos meus companheiros de profissão. “Um biólogo não mata cobras, Nuno”.

Mas meu Deus. Todos nós passaríamos na mesma trilha dali a duas horas. E se o bicho morde alguém. Deixa pra lá. Isso é outra história.

Matei mesmo. Não mostrei o pau porque sou um rapaz educado.

E acho engraçada essa arrogância toda do ser humano. Como se nada nos atingisse.

Piada. Uma gripe do frango apavora todo mundo.

Um fungo pode fazer crescer “algo parecido com uma couve-flor” no pé de alguém.

Quem nunca tomou antibiótico que atire a primeira pedra!

Sei lá. Isso tudo me encheu o saco pela manhã.

Mas amanhã é outro dia.

Espero descer do elevador e ficar sabendo alguma coisa normal.

Algo como “no próximo sábado os condôminos não deverão circular nas áreas de uso comum entre 8 e 10 da manhã. O prédio será detetizado”.

Escrito por Nuno às 20:09
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De uma semana para cá, estou com o sono regulado. Regulado para mim, pelo menos. Acordo perto do meio-dia e durmo pelas quatro e meia da manhã.

Tentei arrumar meu sono no fim de semana, para camelar das oito às oito na segunda. Afinal, dependo de pessoas que trabalham em um horário mais cartesiano. Mas não consegui. Para “piorar”, sexta foi dia de chopp. E de cerveja. E de chopp de novo. Bebi bem, graças a Deus. A ressaca do sábado não me fez arrepender da sexta.

Fiquei assistindo TV de madrugada. Estava zapeando, devia ser umas 03:05 AM. Lembrei de ver o que estava passando no canal do descarrego.

Freak show!

Um cara magrelo, de bege. Era pastor, segundo ele. O nome? Não lembro. Lembro que ele era magrelo e usava bege. E tinha aparelho nos dentes. Não confio em pessoas de bege, desde criança. Por que? Não sei. Bege me parece uma cor pouco sincera. Mas não importa.

O magrelo poderia trabalhar em uma floricultura. Ou ser calouro de comércio exterior em alguma faculdade com um nome estranho. O tipo de cara que se encontra todos os dias no ônibus. Mas ele decidiu ser pastor e usar bege. E teve que aprender a ser convincente. Ou fingir que é. Ele finge que é convincente e as pessoas fingem que acreditam.

O que mais me chamou a atenção foi o castelo ao fundo. Ah! Esqueci de dizer que o programa se chamava “Mistério”. Mistério. Escrito com uma fonte que poderia ser de qualquer livro do Paulo Coelho. Ou pior, se isso é possível.

Voltando ao castelo, ele poderia ser de qualquer filme do Drácula. Assisti vários filmes de vampiro, mas o castelo me era estranho. Havia raios atingindo o castelo. Enfim, era um dos castelos onde o Bela Lugosi se sentiria em casa.

Nem adianta mandar um e-mail para saber que castelo era aquele. Este povo só sabe de encosto. Para eles, Vampira é uma personagem do X-Men. Ou algum tipo de encosto feminino.

Quando o pastor vinha à frente, o fundo se adequava. Vinha junto. Coisa linda. Lembrei dos programas do Ratinho e do Alborghetti na CNT. Aposto que dão créditos a alguma Universal Produções pelo fundo. É a tecnologia do Reino de Deus.

O pastor chamou uma senhora para que desse seu testemunho. É impressionante como todas as mulheres, “ex-mães de encosto”, se parecem. Todas têm o cabelo pintado e são gordinhas. E falam as mesmas coisas. “Eu era escrava do encosto”. “Deixava de dar para os meus filhos para dar para o encosto”. Dar comida, lógico. Ninguém falou em íncubo ainda. “Minha vida era um inferno, pastor” (som de atabaques ao fundo). Tadinha.

O pastor chamou uma vinheta. Arte pura. Imagens se aproximando, como em uma apresentação brega de PowerPoint. Na mesma seqüência, as imagens de um alienígena, de um demônio, de velas. Não consegui encontrar a galinha preta. Havia uma, com certeza. Não consegui identificar várias das figuras. Assisti a alguns filmes do Ed Wood, mas isso não me ajudou na hora. Era muita coisa bizarra. Sobrou até para a Halle Berry.

E o pastor não parava de falar em encosto. É impressionante. Tudo é culpa dos encostos. Eles não têm álibis.

O cara não conseguiu emprego, mesmo sendo analfabeto. Culpa do encosto.

O namoradinho comeu a namoradinha e ela ficou grávida. Culpa do encosto.

A tiazona fez o “regime da feijoada” todas as quartas-feiras e sábados desde os 18 e morreu do coração. “Encosto tá amarrado!”.

E a saída era uma só. Ir à igreja segunda-feira e passar pelo vale do sal. “O Vale do Sal minha amiga e meu amigo, é benção”. “Não importa se a senhora é católica, espírita, evangélica, espiritualista”.

Achei estranho que, durante meia hora, não ouvi citação alguma a “Jesus”, “Deus”, “Espírito Santo” ou qualquer coisa do bem. Era apenas sal e encosto.

Tá, eu sou cristão e normal eu achar falta disso. Mas não. Até o Anton LaVey sentiria falta.

Era muito sal e encosto para qualquer madrugada.

Escrito por Nuno às 16:55
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