Esfolando o joanete


De uma semana para cá, estou com o sono regulado. Regulado para mim, pelo menos. Acordo perto do meio-dia e durmo pelas quatro e meia da manhã.

Tentei arrumar meu sono no fim de semana, para camelar das oito às oito na segunda. Afinal, dependo de pessoas que trabalham em um horário mais cartesiano. Mas não consegui. Para “piorar”, sexta foi dia de chopp. E de cerveja. E de chopp de novo. Bebi bem, graças a Deus. A ressaca do sábado não me fez arrepender da sexta.

Fiquei assistindo TV de madrugada. Estava zapeando, devia ser umas 03:05 AM. Lembrei de ver o que estava passando no canal do descarrego.

Freak show!

Um cara magrelo, de bege. Era pastor, segundo ele. O nome? Não lembro. Lembro que ele era magrelo e usava bege. E tinha aparelho nos dentes. Não confio em pessoas de bege, desde criança. Por que? Não sei. Bege me parece uma cor pouco sincera. Mas não importa.

O magrelo poderia trabalhar em uma floricultura. Ou ser calouro de comércio exterior em alguma faculdade com um nome estranho. O tipo de cara que se encontra todos os dias no ônibus. Mas ele decidiu ser pastor e usar bege. E teve que aprender a ser convincente. Ou fingir que é. Ele finge que é convincente e as pessoas fingem que acreditam.

O que mais me chamou a atenção foi o castelo ao fundo. Ah! Esqueci de dizer que o programa se chamava “Mistério”. Mistério. Escrito com uma fonte que poderia ser de qualquer livro do Paulo Coelho. Ou pior, se isso é possível.

Voltando ao castelo, ele poderia ser de qualquer filme do Drácula. Assisti vários filmes de vampiro, mas o castelo me era estranho. Havia raios atingindo o castelo. Enfim, era um dos castelos onde o Bela Lugosi se sentiria em casa.

Nem adianta mandar um e-mail para saber que castelo era aquele. Este povo só sabe de encosto. Para eles, Vampira é uma personagem do X-Men. Ou algum tipo de encosto feminino.

Quando o pastor vinha à frente, o fundo se adequava. Vinha junto. Coisa linda. Lembrei dos programas do Ratinho e do Alborghetti na CNT. Aposto que dão créditos a alguma Universal Produções pelo fundo. É a tecnologia do Reino de Deus.

O pastor chamou uma senhora para que desse seu testemunho. É impressionante como todas as mulheres, “ex-mães de encosto”, se parecem. Todas têm o cabelo pintado e são gordinhas. E falam as mesmas coisas. “Eu era escrava do encosto”. “Deixava de dar para os meus filhos para dar para o encosto”. Dar comida, lógico. Ninguém falou em íncubo ainda. “Minha vida era um inferno, pastor” (som de atabaques ao fundo). Tadinha.

O pastor chamou uma vinheta. Arte pura. Imagens se aproximando, como em uma apresentação brega de PowerPoint. Na mesma seqüência, as imagens de um alienígena, de um demônio, de velas. Não consegui encontrar a galinha preta. Havia uma, com certeza. Não consegui identificar várias das figuras. Assisti a alguns filmes do Ed Wood, mas isso não me ajudou na hora. Era muita coisa bizarra. Sobrou até para a Halle Berry.

E o pastor não parava de falar em encosto. É impressionante. Tudo é culpa dos encostos. Eles não têm álibis.

O cara não conseguiu emprego, mesmo sendo analfabeto. Culpa do encosto.

O namoradinho comeu a namoradinha e ela ficou grávida. Culpa do encosto.

A tiazona fez o “regime da feijoada” todas as quartas-feiras e sábados desde os 18 e morreu do coração. “Encosto tá amarrado!”.

E a saída era uma só. Ir à igreja segunda-feira e passar pelo vale do sal. “O Vale do Sal minha amiga e meu amigo, é benção”. “Não importa se a senhora é católica, espírita, evangélica, espiritualista”.

Achei estranho que, durante meia hora, não ouvi citação alguma a “Jesus”, “Deus”, “Espírito Santo” ou qualquer coisa do bem. Era apenas sal e encosto.

Tá, eu sou cristão e normal eu achar falta disso. Mas não. Até o Anton LaVey sentiria falta.

Era muito sal e encosto para qualquer madrugada.

Escrito por Nuno às 16:55
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