Hoje acordei quase onze horas. Normal.
Tomei banho, coloquei lente, comi qualquer coisa. Aquelas coisas automáticas de todo dia. Normal.
Peguei meu lixo, desci. Normal.
Estava, como um bom cidadão, separando meu lixo reciclável e, do nada, o porteiro pragueja: “Que absurdo!”.
Não foi um “que absurdo” comum. Nada que se diga quando uma barata aparece onde não deve.
A normalidade do dia acabava ali.
Imaginei que se tratava de algum cano que estourou de repente. Ou então que fosse o vento, levantando a saia de alguma vizinha merecedora de um “que absurdo” que escapa, sem querer.
Sei lá, alguma coisa normal.
“O que foi, seu Zé?”
(Zé é um nome fictício, antes que alguém queira me processar).
“Você já viu aquela propaganda de remédio, que mostra um macaco encurvado, que vira homem?”, ele pergunta.
“Vi sim”.
Imaginei o que viria. Torci muito para que não fosse o que eu estava imaginando.
“Aí o stress faz o homem andar encurvado de novo, que nem macaco. Stress!” Soltou um “Afff” proporcional à indignação que sentia.
“Sei como é, seu Zé”.
“Um absurdo isso. Esse povo fica insinuando que o homem veio do macaco”.
“Nosso Senhor criou o homem”, disse ele, em tom profético.
Ai. Fiquei tenso. Um assunto sério. Meu pior medo logo depois de acordar.
Fiz a melhor cara de paisagem que pude.
“Imagina? Eu, você, todo mundo, ex-macacos! Deus fez tudo e depois fez o homem! Somos a criação mais importante. Deus criou tudo e mandou o homem cuidar, ser senhor”. Pude sentir que ele falava sério.
Por mim sem problemas, pensei. Ele pensa o que pensa, eu penso o que penso e pronto.
Mas aí, estragou a bicicleta.
“Você não acha um absurdo alguém sugerir que você veio do macaco?”
Pronto. A pergunta que eu não queria ouvir. Agora eu teria que dar minha opinião. Não poderia sair pela tangente.
Dei um sorrisinho político, fechei os olhos e mandei:
“Seu Zé, sinceramente, isso não faria muita diferença para mim não. Se Deus me criou com as próprias mãos ou não, não é algo que me preocupa”.
Silêncio embaraçoso.
Sorri, disse bom dia, e saí.
Percebi o “tsc, tsc” dele. O “essa juventude” ele deixou para a próxima.
Mas ele ficou bravo comigo.
Espero não ter problemas com a correspondência agora.
E aquele diálogo ficou na minha cabeça. Isso que foi complicado. Odeio pensar nestas coisas pela manhã.
A primeira hora depois que acordo é sagrada. Nada sério pode passar pela minha cabeça enquanto enzimas, hormônios e todas aquelas coisas complicadas de aula de bioquímica, tentam elevar minha temperatura corporal.
Mas estava feito.
Fiquei pensando sobre aquilo enquanto caminhava até o ponto de ônibus.
Pensei no quanto é estranho termos posições tão contrárias.
O seu Zé é cristão. E eu também sou. Deveríamos acreditar em uma coisa pelo menos parecida.
Somos cristãos diferentes, reconheço. Ele vai à igreja e eu não. Ele se importa com certas coisas e eu não. E vice-versa.
Mas mesmo assim, é estranho.
Ele tem uma história bonita de vida, como me contou outra vez. Fez isso, aquilo. E achou que era hora de parar. Deus queria outra coisa. Aí ficou bem.
Penso que isso é o que realmente importa.
Sei lá. Na minha opinião, um dos papéis mais perniciosos da igreja é este.
Enfiar na cabeça de todo mundo que somos superiores. Que somos senhores de tudo o mais.
Penso se isso não é um argumento meio medieval. Aquelas coisas dos reis absolutistas. “Precisamos de uma razão para sermos superiores e dizimarmos todo o resto do mundo, por favor”.
“Foi Deus que mandou. Deus nos fez diferente. O poder é nosso” parece ser uma boa desculpa. E foi. E é.
Vamos ferrar o mundo inteiro. Afinal, Deus nos deu poder sobre a criação.
Alguém pode argumentar que “Deus quer que cuidemos do mundo com responsabilidade”.
Com todo respeito, responsabilidade é o meu ovo. Poucas pessoas sabem gastar menos que ganham...
Quem vai se interessar por uma floresta? Uma salamandra-ruiva-de-chifres-amarelos-da-namíbia?
Não sou defensor chato da natureza. Se for preciso matar uma cobra em uma trilha, eu mato. Já matei aliás, e fui durante criticado pelos meus companheiros de profissão. “Um biólogo não mata cobras, Nuno”.
Mas meu Deus. Todos nós passaríamos na mesma trilha dali a duas horas. E se o bicho morde alguém. Deixa pra lá. Isso é outra história.
Matei mesmo. Não mostrei o pau porque sou um rapaz educado.
E acho engraçada essa arrogância toda do ser humano. Como se nada nos atingisse.
Piada. Uma gripe do frango apavora todo mundo.
Um fungo pode fazer crescer “algo parecido com uma couve-flor” no pé de alguém.
Quem nunca tomou antibiótico que atire a primeira pedra!
Sei lá. Isso tudo me encheu o saco pela manhã.
Mas amanhã é outro dia.
Espero descer do elevador e ficar sabendo alguma coisa normal.
Algo como “no próximo sábado os condôminos não deverão circular nas áreas de uso comum entre 8 e 10 da manhã. O prédio será detetizado”.
Escrito por Nuno às 20:09
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