Passei por São Paulo ontem, voltando para Curitiba.
E São Paulo é garantia de outdoor bizarro. Por isso, presto atenção sempre. Vez ou outra demora um pouco. O tal outdoor só aparece lá perto de Osasco, ou, então, no começo da marginal Pinheiros. Mas não é preciso roer as unhas. Nem que seja uma faixa, um muro pintado, perto do Rodoanel ou do Jabaquara, lê-se alguma coisa estranha.
Desta vez, não demorou nada. Ali, em frente ao Canindé, em letras garrafais, estava escrito:
MULÇUMANOS CRESÇEM CRISTÃOS DECRESCEM SEM IDEAL DIVIDIDOS
Logo percebi que mulçumano é algo próximo a iorgute, cardaço ou largato. E estava claro que, pela clareza e ortografia, se tratava de algo relacionado a alguma igreja-da-sarça-ardente-pentecostal-do-fogo-santo-dos-últimos-dias. Ou algo parecido. Para ser sincero, não sei muito bem. Imagino que tenha alguma relação com aqueles inúmeros outros outdoors que também cheiram a neopentecostalismo insano.
O que dizer da frase de forte cunho dadaísta, “INCIRCUNSISOS/ MEU TEMPO/ JULGO TODOS”? Penso na cara do pai, interpelado pelo filho, a caminho da escola: “Pai, me explica o que ta escrito ali? Não entendi direito.”
Este é só mais um, além dos mulçumanos que cresçem. Tentei memorizar outros destes slogans dos últimos tempos. Desde que vi o primeiro, procuro por mais. Mas em respeito à perplexidade alheia, abdico do direito de postá-los.
De tudo, o que acho mais interessante é a lógica de telegrama existente na construção destas frases. E sempre fica a dúvida: é possível fazer uma análise sintática?
Como disse, os cristãos que decrescem estavam em frente ao Canindé. E ainda faltava muito. A probabilidade de ver alguma outra coisa de forte apelo evangelístico era grande.
Chegando à Ponte das Bandeiras, a confirmação. Um Cristo de barba escanhoada, olhos azuis, e cabelos claros, com um sorriso de Monalisa, apresentava-se em um outdoor da LBV. Pois é. Faz-se spam de Deus hoje em dia.
E no meu caso, o spam teve desdobramentos. O Cristo da LBV, provavelmente escolhido a dedo por Alziro Zarur, me faz respirar o juízo final. Desde criança. Não sei se sonhei, ou se imaginei uma vez. E, desde então, é ver aquele Cristo e pensar no dia do julgamento.
Liguei o rádio e procurei o programa do David Miranda. Afinal, aquele momento precisava de uma trilha sonora. E nada mais fim dos tempos do que o “Glóóóóóóóória a Dióóóóóóós”, em alto e bom portunhol do missionário.
O Cristo da LBV era o ícone máximo do que, quando criança, imaginava ser o juízo final. Um juízo final sem graça e pouco pirotécnico, reconheço. Mas apavorante.
Tudo sempre se passava no quintal da casa da minha avó. De repente o céu ficava muito escuro e se abria. E do nada, aqueles três inimigos do Superman (Zod, Non e Ursa) começavam a rezar algo parecido com um pai nosso, em um volume ensurdecedor. Os habitantes da Terra acompanhavam, em uníssono, a liturgia, lendo a oração que era projetada no céu, lembrando aquele começo do Star Wars.
O passo seguinte era estranho e igualmente assustador. Formavam-se filas enormes, e as pessoas carregavam seus corações nas próprias mãos. Enquanto isso, Zod, Non e Ursa continuavam lá em cima rezando.
De repente eles paravam. A fila parava. Não se ouvia som algum. E Jesus, no caso o Cristo da LBV, aparecia no céu, acompanhado de sons de trombeta.
Nunca soube o que acontecia depois disso. Acho que nunca tive coragem de continuar imaginando. Tinha medo, medo mesmo. E a tendência era piorar. A minha dramatização ainda não contava com os cavaleiros do apocalipse, nem com dragões, fogo, enxofre.
Credo. Penso se é normal passar por isso quando se é criança. Devia ter medo de fantasma, de bicho papão, do diabo que seja.
Mas não do Cristo da LBV. Nem do juízo final.
Lembrando destas coisas vejo que, quando criança, misturei muita estória do Júlio Verne com passagens do Apocalipse.
Ainda bem que, naquela época, ninguém ficava apregoando por aí que os mulçumanos cresçem.
Poderia ser bem pior.
Escrito por Nuno às 14:51
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