Dias atrás vi uma moça sentada na praça, lutando para pintar um quadro.
Tinta a óleo, ao que parecia. Era o que o nervosismo dela sugeria, pelo menos. Pensei comigo, “é nega, se pintar errado vai ter que esperar secar”. Antes que algum desalmado pense, não, eu não quis agourar o quadro da loura oxigenada.
Reduzi o passo e, aproveitando-me dos óculos escuros, fiquei reparando, um pouco, o empenho alheio.
Ela pintava uma araucária, com os prédios ao fundo. Acho que era isso mesmo. Mesmo se estivesse parado, seria difícil ter certeza. A obra de arte ainda estava no início. Achei curioso quando ela fechou um dos olhos, mordeu a língua e, valendo-se de um dos pincéis (ou seria uma espátula?), media a relação de tamanho dos seus modelos. Ou então admirava o instrumento de trabalho, à luz da manhã. Sei lá, tem doido para tudo.
Acabada a operação, eu já havia passado por ela. Afinal, eu ainda andava. E mais devagar do que aquilo, só se eu parasse, pedisse licença e começasse a engabelar a moça com um papo sobre o bigode do Dalí. E este não era meu objetivo. Nunca fui caçador de artistas plásticas de meia idade. Agora muito menos.
Talvez um dia este quadro esteja pendurado em algum lugar importante. E aí um crítico qualquer, com aquela cara que só os críticos de arte têm, vai falar alguma coisa a respeito. Merda, muito provavelmente. Pelo menos para mim, seria. Como é quase sempre, diga-se de passagem.
O cara pode dizer algo do tipo “a araucária foi concebida com uma grande dose de liberdade estética”. Ou então, que “os tons de azul são contingentes à mediocridade da paisagem urbana enquanto beleza fugaz”.
Seria engraçado presenciar o surgimento de uma pérola de sabedoria assim, deste calibre. Principalmente para quem viu a mulher medindo a araucária.
“Liberdade estética é o meu testículo esquerdo” pensaria, candidamente.
Não tenho nada contra os críticos, fique registrado. Vai ver porque eu sou um grosseirão mesmo e não entendo destas coisas. Mas é que este povo fala umas coisas estranhas.
Lembrei daquele “como fazer um poema dadaísta” (ou coisa do tipo), do Tristán Tzara. É só procurar no google, dar um ctrl+c e temos:
“Pegue um jornal Pegue a tesoura. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema. Recorte o artigo. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Tire em seguida cada pedaço um após o outro. Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco. O poema se parecerá com você. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.”
Sei lá se esta é a versão original, não importa. Peguei de um site pouco confiável mesmo. Fato é que o Tristán Tzara tinha uma franja ridícula!
Mas voltemos ao caso do poema e dos críticos.
Não tenho tesoura, sacola, nem saco para fazer como o guru de franja ensinou. Mas vou fazer o seguinte: vou abrir o “Laranja Mecânica” (traduzido) e selecionar as segundas palavras das vinte e uma primeiras páginas e fazer um poema dadaísta.
“vai vai disse bom bolão a só satélites não num rápido tapado entenda pequenos eu só que Johnny acalmei pobrezinha eslovos”.
Peço perdão, publicamente, ao Anthony Burgess por usar aquele livro divino para escrever uma merda destas.
A idéia é a seguinte: se um crítico qualquer, ou alguém interessado, lesse esta merda sem conhecer meu método infame, o que diria?
“O rapaz quis libertar-se dos paradigmas perversos do estilo. Enquanto método, fique claro”.
“O poema é a resposta de uma alma aprisionada. Sem mais”.
Merda. Merda mesmo. Daquelas, pós feijoada.
Um saco isso tudo.
Se alguém disser que esta merda faz sentido, melhor não me falar nada.
Escrito por Nuno às 17:32
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