Esfolando o joanete


Um fato ocorrido no sábado me faz continuar com este discurso vão e chulo sobre 'arte'. Ou sobre merda, não sei bem o limite. Aliás, neste caso específico, imagino que o chavão 'só Deus sabe' é temeroso. Dependendo do paradigma em questão, nem Ele mesmo é capaz de discernir o limite coprológico da questão.

É que fui ao MASP com a Elaine e com o Bruno, sobrinho dela.

Sobre São Paulo, tenho a dizer que é uma cidade muito doida. Sempre é. Parafraseando o meu amigo Carro Velho, São Paulo é uma cidade “subjestivamente qualificada”. Ainda mais em um dia quente e seco. A sensação era de 'cabelo na chapinha', ou coisa do tipo. E constatei, de novo, o que ouvi dias atrás: “Paulistano é privilegiado. Vê o ar que respira!”.

O motivo principal da viagem não foi o MASP. Não sou culto o suficiente, não faço artes plásticas e nem tenho grana para isso. A renda média do brasileiro cresce, diz o Lula, o IBGE, o bispo, o Ratinho, o capeta. Como se trata da média, subentende-se que o mar não está para qualquer peixe.

Pindaíba à parte, fato que fui para São Paulo.

Fui ao casamento do primo da Elaine. E casamento sempre tem aquela coisa de pega sapato, compra gravata, arruma camisa e o diabo. Passei, com gosto, por este calvário semana passada. Vestir-se para ocasiões formais é complicado. Prefiro roupa de proletário. Mas não vou ser hipócrita e admito: usar terno, de vez em quando, é bacana. Faz bem para o ego saber dar nó na gravata e não precisar comprar aquelas com zíper, velcro ou abominações similares.

O meu maior problema é com as ocasiões que exigem o referido traje e não com a vestimenta em si.

Chateia apenas o fato que calça social faz coçar lugares extremamente estranhos. Lugares desconhecidos para quem nunca vestiu uma merda destas. Não é o saco, nem a virilha, nem a coxa, nada. É um lugar que, pelado, não se acha nunca. Só existe, e coça, quando se veste a dita roupa.

Escolhi, com cuidado, a gravata, a camisa e fui. Tomei cuidado com a escolha, claro. O limite entre estar apresentável e parecer uma ilusão de ótica é sutil.

O casamento foi muito bacana. Um lugar bonito, pessoas bonitas. E nada de marcha nupcial. A noiva entrou com o quarto movimento da nona de Beethoven. Arte! Com todas as letras! Coisa absurdamente bonita, aquela moça linda com aquela música maravilhosa e o noivo lá esperando no altar. Alex DeLarge, se convidado, precisaria de uma camisa de força para se comportar. A escolha da música, por si só, valeu o casamento. Poderia até faltar bebida na festa, que estava perdoado. Desde que faltasse refrigerante apenas, é claro. Festa sem cerveja não dá. Mas tinha. À rodo, graças a Deus.

Antes do casamento fomos ao MASP. Como disse, o Bruno, a Elaine e eu. O Bruno é um menino bonito e esperto, e tem uns oito anos, eu acho. Encarava como maravilhosa a experiência de ir a um museu como aquele. Passou o dia todo esperando o momento de entrar naquele salão de escadas com corrimãos vermelhos.

Tratava-se da exposição “da Bauhaus a (agora!)”, com obras da coleção da DaimlerChrysler. Alguma coisa deste tipo.

A minha pira e a da Elaine estavam garantidas, queria ver a dele.

Não sei bem como descrever a cara dele nos variados momentos. Ele gostou de várias coisas, fato. Principalmente de uma obra que tinha umas bolinhas que se mexiam. Eu também gostei de muita coisa. Vi, pela primeira vez, uma obra do Andy Warhol. O cara bancou o Velvet Underground, e isso seria suficiente para merecer admiração. Gosto das coisas dele. Mas apenas porque acho bonito. Não perderia cinco minutos da minha vida olhando para uma trama de canos cobre (que também vimos lá) apenas porque 'Andy Warhol fez'. Nem pagaria horrores em uma tela branca apenas porque ele pintou ou não pintou. Não consigo tirar explicações místicas sobre nada destas coisas. Para mim, o que importa é ser ou não bonito.

O Bruno começou a repensar o conceito de 'obra de arte' quando chegamos ao seguinte cenário: uma placa de metal, ligada a um motor de geladeira, que fazia a placa se congelar de uma maneira qualquer. Para completar, uma sandália xadrez sobre a placa. Tentou desfazer-se da perplexidade, perguntando “o que é isso, tio?”. Também não havia entendido o que o cara quis com aquila obra e, assim, não podia engabelar a criança. Fui ler o que diziam sobre a obra, para ter uma luz. Mas não tive coragem de dizer coisa tão sem sentido para o rapazinho. Era algo sobre os relacionamentos humanos. Seria conivente com essa merda se dissesse alguma coisa a ele. “Coisa feia, né?”.

Do outro lado do corredor, uma coisa com um (now!) escrito. Ele e eu fizemos a mesma cara de “o que este trem estranho faz aqui?”. Ficaria melhor em um ponto de ônibus ou em uma loja de televisão de tela plana. Na minha modesta opinião, é claro.

O (now!) era esse: http://www.sammlung.daimlerchrysler.com/contemporary/07_08_thecollection_brazil/index_g.htm

“Coisa feia, né tio?”

Nunca na minha vida vou me esquecer da cara e da frase do Bruninho quando viu uma varinha (sei lá que diabos era aquilo) cheia de umas mega miçangas coloridas. Vermelho, preto e branco eram as cores daquilo. Minha primeira impressão foi a de um graveto cheio daqueles discos de marshmallow, aqueles de assar na fogueira. Sem desmerecer o criador da varinha de miçanga, mas se alguém dissesse “que isso aí? Ah tá! Leva para o achados e perdidos. Um hippie que estava aqui há pouco deve ter esquecido”, estaria de bom tamanho.

Olhei para a Elaine e vi que ela era solidária. Ainda bem. Se ela dissesse que havia entendido o que o cara quis com aquilo, teria medo do futuro da nossa relação.

O rapazinho de camiseta hot wheels lançou um olhar colérico, espantado e a frase auto-explicativa: “Isso aí, até eu faço!”. Pois é Bruninho. Você faria sim. Aposto que, como torcedor do Coritiba, a única diferença seria na cor dos marshmallows que você escolheria.

Eu entendo a carinha dele quando perguntamos “o que você mais gostou?”. Nem a loira siliconada, em trajes sumários, habitando um dos quadros foi lembrada. Não sei se pela pouca idade ou pelo rancor da varinha dos marshmallows. Quando falamos 'museu', talvez ele tenha imaginado que entraria na Capela Sistina. Que veria pinturas com molduras douradas, esculturas assombrosas, coisas que não cabem um “isso aí, ate eu faço”.

Meu conselho quando revê-lo será o seguinte: espete os marshmallows na varinha e tente vender para a DaimlerChrysler. Aliás, não venda. Troque por um PT Cruiser Classic.

Escrito por Nuno às 01:52
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