Esfolando o joanete


Dia destes comprei um Tang de cajá e um Tang de graviola. Não lembro bem se foi no mesmo dia. Sei que comprei. Gastei algum real e meio do meu salário com uns pozinhos de gosto duvidoso. Antes que alguém queira me colocar em maus lençóis, esclareço: Tang não é uma gíria para qualquer outro pozinho branco fora da lei. Era Tang mesmo.

Algumas horas antes, um amigo havia me oferecido um waffer. Aceitei, achando que se tratava do básico: aquela massinha bem fina e crocante, recheada com chocolate. Claro que sem ilusões quanto ao chocolate: ele não vinha da Bélgica. Muita sorte se não viesse da China. Posso até imaginar aquele mundo de chineses mal pagos trabalhando em um fábrica abafada, misturando água, soro de leite, leite em pó, extrato de cacau e algum conservante com aqueles nomes de asteróide. E exportando batalhões de conteinêres de chocolate para o ocidente. Colombiano, porto-riquenho ou não, fato que o waffer não era de chocolate. Era de doce de leite. Tentei conter a expressão de descrédito, a rebelião de todos aqueles músculos que levam àquela cara clássica que se faz em situações onde não se pode acreditar no que se ouve.

Por educação e curiosidade, experimentei a bolacha. [Bolacha mesmo, explico. Na minha terra, biscoito é o de polvilho. Tudo o mais é bolacha]. E a tal Bono de doce de leite era estranha. Imagino que manteiga de baleia tenha um gosto parecido. Uma única bolacha foi capaz de me deixar no céu da boca aquela camada hidrofóbica de gordura hidrogenada.

Lembrei, saudoso, do waffer de chocolate que comia quando era criança, deitado, assistindo qualquer desenho na TV e bebendo leite frio.

É, meu caro, os tempos são outros... Estamos presenciando a invasão sorrateira dos sabores malignos, a disseminação desenfreada de aromas e gostos pouco ortodoxos. Por todo os lados, as quimeras pululam: Fandangos de churros, Nescau guaraná, Cheetos x-burguer, Bis de laranja, Toddy floresta negra.. Até a sagrada cerveja foi maculada: já existe uma tal “Crystal Fusion Guaraná”, além da não menos excomungada Skol Lemon. Saudade dos tempos onde o mau uso da cerveja não era assim tão disseminado, época em que só um ou outro tiozão colocava um rodelinha de limão na tulipa gelada...

Destes todos que citei, o que mais me amedronta é o Nescau guaraná. Imagino que este purgante seja efervescente... Não sei se tenho menos papilas gustativas que um ser humano normal, mas não consigo conceber a sutileza do sabor deste chocolate amazônico. Sem contar a propaganda. Um indiozinho com xistose chega, esbaforido, à aldeia, com um embrulho estranho. No segundo take, aquele bando de figurantes, metidos à Caramuru, olham, surpresos, o pote marrom inofensivo. Alguém tem a brilhante idéia [chavão] de chamar o sacerdote que, após a pajelança clássica, traz de algum plano paralelo um copo de leite. Colheradas generosas do Nescau são misturados ao leite imaculado, que toma aquela cor insossa. Um índio imberbe, de olho na filha do cacique, toma para si a responsabilidade de toda a aldeia. Suspense. O copo é esvaziado com todos aqueles barulhos característicos. O herói exibe, orgulhoso, o primeiro bigodinho da sua vida...

A Fanta vem flertando, novamente, com estas heresias. Há alguns anos, encontrávamos por aí Fanta maçã, Fanta citrus... Mais alguma? Não me lembro bem. Apesar de ser um sabor maligno, a Fanta citrus foi, durante um tempo, o melhor cura ressaca da praça! Não havia nada que resistisse àquele Fanta sal de fruta. Nenhum bicarbonato de sódio era páreo para aquela latinha esverdeada, para todas aquelas borbulhas salutares. O arroto que seguia o primeiro gole era memorável, era o gatilho para possíveis recordes em campeonatos da modalidade. Seguiu-se um tempo de calmaria, onde apenas os sabores clássicos desfilavam. Fanta uva e Fanta laranja, o supra-sumo da ortodoxia dos refrigerantes.

Eis que um dia destes sou surpreendido por todo o rebuliço relacionado aos novos vilões de Fanta. Era alguma coisa “Fanta sabores do mundo”. Fui vítima da curiosidade. Experimentei a tal Fanta laranja + manga, representante da Tailândia no alardeado concurso de sabores estranhos. E, sem querer encarnar o fariseu, reconheço: não era ruim. Um gosto dispensável, todavia. Nada que se tome mais de uma vez.

Em matéria de sabores malignos, entretanto, a Fanta engatinha. O arauto do apocalipse atende por “Jones Soda Co.”, que já colocou no mercado refrigerantes de ervilha, purê de batatas com manteiga... Imagino um almoço de domingo, abalado por um diálogo inimaginável: “Mãe, tem ervilha?”, “Tem sim, querida. No empadão e no refrigerante”.

Problemas com o refrigerante, todavia, não são o que me preocupa. Em parceria com uma vodka razoável, qualquer porcaria do mundo tem seu lugar ao sol. Fico preocupado é com os Fandangos da vida. Fico preocupado com um mundo onde é possível escolher entre uma dezena de sabores de bolacha. E enquanto isso, maravilhas como a goiabinha e o presuntinho da Piraquê, ou a célebre cremogema, escasseiam nos mercados.

Não sei qual a próxima novidade que me espera nas inofensivas prateleiras do mercado. E pensando bem, nem quero saber. Prefiro ficar tomando a minha Fanta Uva e comendo meu Fandangos de queijo.

Escrito por Nuno às 17:54
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