Não acredito em reencarnação.
Mas concordo que poderia ser engraçado descobrir uma vida passada.
Não sei. Agora fiquei na dúvida. Acho que encheria o saco demais.
Eu acabaria encontrando alguns conhecidos de outras vidas. Alguém poderia insistir que foi meu/ minha amante, meu/ minha fiador(a). Alguém poderia espalhar que eu usava cueca por baixo do espartilho na idade média. Ou que eu fui conhecido como “Sándor, o flatulento”, na Hungria do século XI. Sei lá se naquele tempo existia Hungria. Não me lembro.
Tá. Reconheço que alguma coisa poderia ser digna de lembrança.
Imagine a glória em descobrir que fui um ostrogodo? Isso. Eu fui um OSTROGODO. Em caixa alta mesmo. Um bárbaro, no sentido mais literal possível.
Acho que vivi no século quinto. Preciso consultar a wikipédia para saber. Ok. É isso. Vivi metade em cada século. Séculos quinto e sexto.
Adorava minha esposa Frida que era, na verdade, uma burgúndia. Frida era a típica mulher goda, sem trocadilhos. Engraçado que lembro o nome dela e não me lembro do meu. Nem do nome dos meus filhos, eu me lembro. Tive cinco com Frida, isso é certeza. Guardava o cordão umbilical de todos eles. E depois fazia um ritual muita em moda naquela época. Para garantir a sorte dos meninos, fique claro. Fora outro filho, com a mulher do taberneiro. Não pude resisitir, e o único contraceptivo da época era o coito interrompido. Sempre fui contra essas heresias. Coisa de bárbaro old school.
Lembro que me cansei de ficar olhando o Mar Báltico. Cansei da vida de ogro ostrogodo. E recebi uma revelação do deus ostrogodo. “Junte hordas de vândalos barbudos e invada a Itália! É tempo de sangue, caçador maroto. Eu serei contigo”.
Transformei milhares de cidadãos comuns em máquinas de guerra. Enredo de filme ruim, admito. Qualquer semelhança com qualquer um dos 137 filmes que tratam do tema “transformar homens em guerreiros” é coincidência. Mas no meu caso foi bem mais fácil. A sede de sangue e de macarrão ao pesto legítimo corria nas veias daqueles homens. Não era treinar bundões do naipe do Mel Gibson.
Invadir a Itália era preciso!
Despedi-me de Frida e dos moleques. “Depois eu te busco, nega”. Comi os últimos 23 galetos na terra dos meus ancestrais.
Partimos.
Um enxame de gafanhotos.
Levamos a destruição por onde passamos. Aquela disputa de inimigos mortos entre o Legolas e o Gimly, além de plágio, não foi nada. Coisa de elfo loiro fracote e de anão complexado. Afiava o machado nos pré-molares das vítimas. Fazíamos aquilo que gostávamos. Além de ter em mente a necessidade de garantir o queijo parmesão dos filhos. E o salame. E a aquelas armaduras que, embora afeminadas, tinham estilo.
Matamos. Esquartejamos. Brincamos de cabo de guerra com as tripas alheias. Fiz coleção de caveiras. E de cintos de couro também. Afinal, eu era um bárbaro fashion.
Chegamos à bota.
Como vogons dissemos “toda resistência é inútil”. E foi assim.
Deixei de matar apenas quando descobri o espaguete à carbonara. Era melhor que sangue.
Esqueci da guerra e, para a Frida, mandei uma mensagem. Uma que dizia tudo. “Vem nega, que eu tô ocupado”.
Afinal, tinha que aproveitar. Comida demais. Vinho demais. Escravas demais (não necessariamente nesta ordem).
Era a santíssima trindade para um ogro ostrogodo.
Escrito por Nuno às 18:56
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