Li uma coisa hoje que me deixou intrigado. Por dois motivos: primeiro, como alguém não inventou isso antes? E segundo, como alguém pode inventar uma coisa destas? Eis que entre uns milhões de sinapses, e trocentos tipos de neurotransmissores, surge a idéia do papel higiênico literário. Em letras amistosas, a manchete: "Empresa lança papel higiênico literário na Espanha".
Não sei se é necessário dizer que a notícia se encontra em meio às populares do portal terra. O nonsense mora ali, naquele link discreto, naquelas letras brancas. Quando me dou conta que mais uma notícia insólita pipocou na seção de política ou de economia, é para lá que eu corro. É um elixir para todas essas agruras do mundo cartesiano. A um click, lê-se: "Legisladores rejeitam proibição de calças baixas". Ou então que "Concurso elege bulldog mais bonito dos EUA". É neste nível. Imagino os debates acalorados, a apreensão dos criadores, o burburinho das senhoras cheirando a laquê. Doze litros de limonada depois, o veredito: as bochechas simétricas definiram o campeão!
Voltando à vaca fria, já é possível encomendar papel higiênico com citações clássicas. Sempre que me deparo com novidades deste calibre, lembro da minha vó dizendo "este povo não tem mais o que inventar". Pois é, vó. Isso porque a senhora nos deixou há mais de dez anos, infelizmente, e não viu ninguém jogando wii. Hoje em dia o seu balançar de cabeça seria mais enfático, com certeza.
Em uma primeira análise, o referido papel higiênico solucionaria um problema pertinente. Vez ou outra é complicado encontrar algo para ler no banheiro. Chega uma hora em que todo mundo sabe que qualquer pasta de dente contém lauril éter sulfato de sódio. Ou seria o xampu? Não tenho certeza. Não seria mais preciso folhear a mesma revista um zilhão de vezes, nem ter diariamente a impressão de que "eu já li isto aqui". Não estaria mais em pauta a apelação para joguinhos de celular ou palavras cruzadas.
Mas e quem abomina a leitura nestas condições? Que acha que a ida ao banheiro deve ser feita em alfa, sem pensar em nada? Imagino que, para estes, seria uma violação encontrar uma citação do Kierkegaard ali, de surpresa. Sem contar situações desagradáveis onde uma simples frase seria de extremo mal gosto. Que diria alguém com prisão de ventre ao ler que "Willing is not enough; we must do"? Uma raiva visceral de tudo que diga respeito à Goethe seria criada ali, no banheiro.
Alguns casos parecem ainda mais bizarros. As mães, aflitas, ensinariam aos filhos que ninguém pode usar um papel higiênico que contenha qualquer citação bíblica.
"Menino, se tiver qualquer coisa da Bíblia, você não usa mesmo! Viu?". "Mas mãe, e se não houver outro?". "Se vira, moleque! Não faz cocô! Ou então limpa com a cueca. Agora, se for qualquer coisa do Nietzsche, aquele excomungado, limpe-se várias vezes!".
Mais curioso ainda ler que as primeiras citações da Bíblia utilizadas são dos livros de Apocalipse, Cantares de Salomão e Provérbios. Antigamente o Apocalipse intimidava mais, acho eu. Sinceramente, acho que qualquer coisa relacionada à religião deve ser tratada com um pouco mais de tato. Mas este é outro assunto. Alguns problemas de ordem moral, extremamente desnecessários, seriam criados. Sem dúvidas.
Defensores de correntes de pensamento antagônicas encomendariam rolos com citações do rival. Em algum curso de Filosofia seria possível ouvir o comentário maroto: "Tem um papel higiênico com qualquer coisa do Kant lá, corre senão acaba!". Cada um carregaria, no próprio papel higiênico, a citação preferida. Os mais descolados teriam dois rolos, sempre à mão: um para ler e outro para usar, efetivamente. Sem contar que mais dia, menos dia, um ou outro, mais excêntrico, começaria uma coleção de recortes de papel higiênico...
Pensando assim, rápido, não consigo imaginar qual frase estaria estampada no meu papel. Sou partidário que revista em quadrinhos é o melhor tipo de leitura para o banheiro. Melhor no bom sentido, claro. "Caras" também é uma boa pedida. É apropriado saber no banheiro que o cachorro de alguém fez aniversário. Ou que tal decorador fez o último projeto da casa daquele figurão da mineradora. Revistas que tratam de celebridades, de novelas (mesmo quando não se sabe quem matou quem) têm nicho garantido em qualquer banheiro. Revistas de arquitetura também, não posso me esquecer. Em suma, acho que a diferença entre o que se lê na sala de espera do dentista e no banheiro parece ser muito sutil.
Afinal de contas, ninguém precisa ficar pensando se vai para o céu ou para o inferno, se o universo é infinito ou se o homem é mal por natureza enquanto faz cocô.
Concordo com algo que li uma vez em um banheiro ermo qualquer: "todo mundo tem o direito de cagar em paz".
Ps.: em respeito à fonte da notícia (que levou à tanta bobagem, diga-se de passagem) segue o link: http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI2767275-EI1141,00-Empresa+lanca+papel+higienico+literario+na+Espanha.html
Escrito por Nuno às 07:10
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