Ficava sem paciência com aquele papinho chavão que existia antes de qualquer Brasil x Bolívia. Era altitude para cá, balão de oxigênio para lá. "O time vai ficar concentrado em Santa Cruz de la Sierra e seguirá para La Paz momentos antes do jogo". Ou então, o contrário: "temendo os efeitos da altitude, a CBF decidiu adiantar a viagem da seleção para a Bolívia". Ou Equador, Peru, tanto faz. A ladainha era sempre a mesma. A não sei quantos mil metros de altitude, qualquer time de menos tradição metia medo. E os resultados realmente sugeriam que o buraco era mais embaixo. Ou mais em cima, neste caso.
Daqui do nível do mar, eu achava que era apenas um teatro aqueles jogadores sem fôlego, aqueles falsetes - que orgulhariam um Bee Gee - na hora das entrevistas. Mas como?, até o Evo Morales, com dois dígitos de taxa de gordura corporal, consegue jogar a segunda divisão boliviana!
Eu não acreditava nesta história toda de "Mal das montanhas", "mal da altitude", com hífen, sem hífen, tanto faz. Aliás, será que não existe um nome mais pirotécnico, começado com pneumo-, que justifique todos os vexames em lugares tão acima do nível do mar?
Pois bem. Na segunda quinzena de janeiro deste ano, tive a chance de ir coletar no norte da Argentina. Seria a chance de comer carne de lhama, de abraçar um cacto de verdade, com um milhão de espinhos, de experimentar mais algumas três marcas diferentes de cerveja. Trocaria, pelo menos por uns dias, a coxinha de frango pela empanada de pollo. E por falar no quitute, visitaria Salta, o El Dorado das empanadas! De quebra, o comportamento da minha pressão arterial, brônquios e bronquíolos em altas altitudes seria finalmente testado.
Saberia, enfim, se o safado do Taffarel tomou aquele frango em 1994 por falta de sorte ou de oxigênio.
El Quemado, um lugarzinho qualquer entre o nada e o lugar nenhum foi o palco da experiência. Só para constar, era para a frente de Purmamarca, em direção ao Chile. E em Jujuy que, aliás, tem empanadas melhores que as de Salta. E que só não é um estado mais bonito que Minas Gerais.
A subida começou despretensiosa e foi ficando cada vez mais estonteante, em todos os sentidos. Era um lugar maravilhoso, desértico. Todas as cores do mundo nas montanhas, nos leitos secos dos rios. E, a cada quilômetro, "água" parecia ser uma palavra mais e mais abstrata.
Andamos. Procuramos bichos. Enchemos um par de cartões de memória com todas aquelas fotos. Era um tal de fazer pose com cacto, com gente, com pedra... E parecia tudo bem. Mas chegamos a El Quemado, 4.170m, o armagedom das minhas hemácias. Não sei se houve um certo "efeito placebo" de ver uma placa marcando uma altitude tão indecente. Fato é que comecei a ficar esquisito. Não imaginava que um coração humano pudesse bater com tamanha intensidade. Lembrei de um gato asmático, desnecessário dizer o porquê. Tentava me enganar de que não teria um treco qualquer. Evitava movimentos desnecessários, afinal, "era preciso evitar a fadiga". Invejei os tibetanos e torci para que, em alguma casinha qualquer, alguém estivesse leiloando alguns milhões de glóbulos vermelhos.
Denecessário dizer que tive sangue frio para tirar uma fotinha junto à placa supra citada. E que gastei alguns pesos comprando uns badulaques dos nativos que, aliás, pareciam mais bolivianos que argentinos. E que, pela animação, poderiam facilmente correr uma maratona plantando bananeira. Mesmo ali, onde oxigênio não diz muita coisa. Ironia encontrar alguns outros brasileiros, voltando do Chile, e que sorriam solidários, compartilhando as dificuldades fisiológicas.
Depois de bancar o turista, tive que trabalhar. E foi necessário correr alguns dez (não seriam cem?) metros para coletar o único espécime que valeria a viagem. E naquele momento eu entendi que não era má vontade do Jorginho quando as bolas mais mansas saíam pela linha de fundo...
Da próxima vez, vou me aproveitar da hospitalidade dos jujueños e tirar as minhas próprias conclusões quanto aos efeitos medicinais da folha de coca. E o bom é que, no meu caso, não vai ser doping.
Escrito por Nuno às 21:55
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