Esfolando o joanete


Quando comecei a escrever neste blog, quase fiz uma promessa para mim mesmo. Pensei, “vou conseguir não pensar em política, nem escrever sobre estas bobagens”.

Coincidentemente, naquela época, estava em um processo de desintoxicação. Tentava fugir de informação. “Quer saber da última do seu país, Nuno?” “Não, obrigado”. Nada de rádio, nada do comentário diário do fulano, do artigo semanal do siclano. Zapeava, debilmente, quando a TV mostrava aquela tomada clássica do Palácio da Alvorada. Quando lia o jornal, ou uma revista qualquer, procurava, instantaneamente, coisas reconhecidamente mais interessantes: futebol, culinária, mulher pelada. Fiz força para que, durante um tempo, jardinagem fosse um assunto mais apaixonante que política ou economia. Lembrava de direita e esquerda apenas na hora de calçar o tênis.

Tentei de tudo. Se conhecesse as táticas de treinamento que aqueles domadores impõe aos bichos, seus comandados, eu as tentaria comigo mesmo. Neste panorama, depois de alguns meses, qualquer nome ou sigla relacionados ao demoníaco assunto, seriam sumariamente ignorados. Ambicionava chegar a um ponto onde seria confundido com alguém lobotomizado. A palavra “Lula” receberia, das minhas sinapses, o mesmo tratamento destinado à Cloridrato de Metoclopramida.

Mas não consegui.

Usando uma metáfora bíblica, estou sete vezes pior. Sem contar que, nesta fase atual, tenho sempre por perto amigos que gostam do assunto. Instalamos uma espécie de clube de bordadeiras aqui no departamento. Desde então, ficou impossível manter-se a parte do mundo. Um sempre alimenta o monstro de “centro”-direita que existe no outro. E ninguém acha que, por ser de direita, o vizinho se torna nazista, maníaco sexual ou assassino de criancinhas. Não existe suspeitas sobre a existência de tatuagens do Josef Mengele. Sem contar que nas mesas de bar, sempre temos a participação de algum amigo com visão contrária. E, nestas oportunidades, não cortamos o microfone de ninguém.

Na adolescência e início da juventude, tive problemas desta ordem. Não entendo o porquê, mas parece que é moda ser comunista (sem ser pejorativo) quando se é jovem. Acontece que, no meu caso, nunca metabolizei este hormônio vermelho. Nunca tive uma camiseta do Che (o que poderia ser uma mancha na minha história, reconheço), não me filiei ao PC do B nem ao PT, como muitos amigos meus. Por falar no “herói” barbudo e de boina, quase apanhei uma vez, ao ironizar tão imaculado ícone. Eu era sempre o porco direitista.

Tentei, uma vez, ir contra tudo o que acreditava: votei no Lula. E, desde então, tenho uma outra definição para peso na consciência. Além de pensar diferente sobre a obrigatoriedade do voto.

E tudo piorou quando fui para a faculdade. Carreguei um anátema por quatro anos. As pessoas se surpreendiam comigo. Afinal, eu fazia biologia e era barbudo. Ser comunista era um adjetivo mais que óbvio. Mas quando o assunto descambava, eu me tornava o Lázaro. Mas sobrevivi. Tive poucos amigos no DCE. E, em vista da insalubridade do território, preferia falar sobre taxonomia de pteridófitas, paradigma vicariante, futebol ou da beleza que havia nas microvilosidades quando vistas ao microscópio.

Nem sei porque estou gastando meu tempo precioso com tudo isso. Afinal, o blog não seria usado para estes fins.

Talvez porque ontem o maitréia da nova era das desculpas esfarrapadas em política se manifestou. E eu me senti na obrigação de celebrar o advento de novos tempos.

Eu imaginava viver em um país onde, quando em xeque, os políticos - e outros simbiontes (sindicalistas, lobistas, funcionários de diferentes escalões) - diziam apenas “eu não sei nada sobre isso”. Variações no tempo verbal e regionalismos a parte, a idéia era sempre a mesma. Como expoente máximo da escola do “não sei”, tivemos o nosso presidente, que proferiu a frase cabalística alguma vezes durante o seu mandato.

Ontem, entretanto, o suposto vazador do dossiê foi além. O “não sei, não me lembro”, ficou para trás. Ele foi a primeira testemunha de um mundo previsto por vários escritores de ficção científica. “Eu não me lembro de ter clicado para repassar a base de dados". Clicar?, para que? O futuro chegou. Vivemos a era das máquinas. Os computadores têm vontade própria. Quem for comprar um exemplar do clássico Neuromancer, não vai mais encontrá-lo na prateleira de ficção.

É com pesar, entretanto, que olho pela janela e não vejo carros voadores. O lugar que seria do meu traje futurista é ainda ocupado pela mesma calça jeans de sempre. Ainda continuamos com aquela mesma rotina arcaica de plantar, esperar crescer, descascar, cozinhar e comer. Nada de pílulas de rosbife com batatas, nem de raio laser por todos os lados. E até agora, infelizmente, nenhuma espaçonave apareceu.

Suponho que, como sempre, as coisas fantásticas comecem em Brasília. O mundo que eu vejo é certamente deturpado. Falta para mim e para a maioria das pessoas normais, a sagacidade e os óculos 3D do vazador. Ele cometeu, na verdade, uma gafe. Revelou algo que poderia criar uma comoção de proporções descabidas. Ontem a sociedade esteve a ponto de ruir. A verdade quase foi revelada. A resposta foi imediata, e procurou aceitação nos medos mais primitivos da população: “foi um fantasma”.

Somos dominados por máquinas. E, infelizmente, as que pararam por aqui são das mais estúpidas. Aposto que são todas uma versão beta qualquer. E que têm um nome onomatopéico.

E em Brasília, não se esqueça: o que parece um velho IBM é, na verdade, um deputado sem a carenagem.

Escrito por Nuno às 16:14
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Recebi um selo.

Nada de filatelismo enrustido, entretanto. Ainda não desenvolvi este interesse. O maior contato que tenho com selos, é lamber - e colar na cartelinha - aqueles que qualquer um ganha quando compra um sanduíche no Subway. Subway, aquele mesmo que vende versões saudáveis e afrescalhadas do bom e velho “xis ignorância”.

Ganhei um selo para o blog.

Fiquei realmente feliz com o presente. Afinal, este blog aqui é amador, despretensioso. É a versão blog daquelas bombas do MacGyver. Tudo feito com elástico de cabelo, um clip e chiclete mascado. O gran finale quem dá, é o template, horroroso, saído das profundezas do bom gosto de algum programador do uol. Mas ele teria que ser assim mesmo, reconheço.

E não foi de qualquer pessoa.

Foi da Letícia (aka dona do babelpontocom.blogspot.com) que me repassou um selo que recebeu. A Letícia escreve muitíssimo bem, tem estilo, tem português (e inglês, espanhol, italiano...) de livro. E fala de tudo. Nunca se sabe exatamente o que vai estar postado no babel. Certeza, apenas, da qualidade do que vai ser lido. Diria, sobre visitar o Babel, algo no extremo oposto ao “é uma cilada, Bino!” - frase mítica de Pedro (aka tiozão do caminhão no seriado Carga Pesada).

Letícia, obrigado, de coração.

Ps.: o selo é este aqui: http://bp3.blogger.com/_69T5tHC8CCI/SC800iO0ZuI/AAAAAAAAAUU/alAOzdBz7x4/s1600-h/selo2.jpg

Escrito por Nuno às 11:51
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